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Aquisição da Unopar, de ensino à distância, melhora resultados da empresa e a coloca como uma das finalistas do prêmio iG/Insper

Galindo:
Greg Salibian/iG
Galindo: "Há muito espaço para consolidação no ensino superior brasileiro"
De um lado, empresas reclamando da falta de mão de obra qualificada. De outro, trabalhadores que se deparam com estatísticas indicando que, sim, estudar compensa financeiramente no Brasil. No meio desse cenário, um mercado pulverizado, com centenas de escolas e faculdades, pedindo para ser consolidado. Foi aí que a Kroton resolveu avançar, com resultados a colocaram como finalista do Prêmio iG/Insper Negócio do Ano 2012 .

A Kroton viu, por exemplo, seu lucro chegar a R$ 52 milhões em 2011, três vezes e meia o valor registrado no ano anterior. Como parte da estratégia para atingir esse resultado, a empresa adquiriu a paranaense Unopar por R$ 1,3 bilhão , em dezembro. A Unopar é uma das líderes brasileiras no ensino a distância, segmento de maior rentabilidade no setor. Além disso, enquanto o mercado de educação no País cresce a 7% ao ano, a educação a distância teve alta de 36% entre 2007 e 2010, segundo o Censo Educacional do Ministério da Educação (MEC).

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Antes de se decidir pela aquisição, no entanto, a Kroton fez, sem trocadilho, a lição de casa. No fim de 2010, a empresa começou a fazer um levantamento com todas as 2,3 mil instituições de ensino privado do País, num trabalho que durou seis meses. A partir daí, excluiu as entidades sem fins lucrativos, as faculdades muito pequenas ou com grandes passivos. Ao final, sobraram cerca de 600. “Ou seja, ainda existe muito espaço para consolidação no ensino superior brasileiro”, afirma Rodrigo Galindo, presidente da Kroton, um leitor assíduo do escritor russo Fiódor Dostoiévski.

iG/Insper
O espaço de consolidação existe, de acordo com o analista de mercado educacional Carlos Monteiro, da CM Consultoria. Em 2009, as 50 maiores instituições de ensino privado do País representavam 27% das matrículas e respondiam por 2% do universo das escolas privadas no ensino superior. Já no Censo de 2011, 19 instituições de ensino respondiam por 31% das matrículas. “Nos próximos anos, os grandes conglomerados de educação vão chegar a 40% das matrículas”, afirma Monteiro.

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 Segundo ele, a tendência de desconcentração das atividades de educação deve se deslocar do eixo Sul-Sudeste para outras regiões do País. Isso porque o PIB do Norte, Nordeste e Centro-Oeste cresce mais do que no resto do país, o que impulsiona a demanda por serviços de educação e as matrículas também aumentam mais do que a média nacional.

Após a compra da Unopar, a Kroton passou a contar com 320 mil alunos, sendo 300 mil na graduação e 20 mil na pós-graduação. Cerca de 120 mil assistem às aulas no presencial e quase 200 mil alunos as acompanham pelo ensino a distância. Já na educação básica, a companhia tem cerca de 280 mil alunos que utilizam seu sistema de ensino por meio das escolas associadas.

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Segundo Galindo, a Kroton deve fazer mais aquisições. “Estamos preparados para crescer”, diz ele. “O fato de estarmos em processo de integração com a Unopar não nos impede de fazer mais aquisições no ensino presencial”. Ele reitera, no entanto, que a estratégia da companhia está focada em ativos de médio porte, de até 5 mil alunos. Atualmente, a empresa está em processo de due diligence com três empresas.

Estúdio de ensino à distância da Unopar: segmento tem melhores margens na área de educação
Divulgação
Estúdio de ensino à distância da Unopar: segmento tem melhores margens na área de educação
Nos novos negócios, a Kroton tem mirado as regiões de maior poder de crescimento, fora do eixo Sul-Sudeste. “Isso não nos impede de fazer aquisições em outras regiões, mas elas são a nossa prioridade”, afirma. “O IUNI [também adquirido pela Kroton] foi o primeiro grande grupo a olhar as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste como o principal alvo de crescimento do ensino superior privado brasileiro”, afirma. A Kroton adquiriu o IUNI em março de 2010 por R$ 191 milhões.

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Além dela, a Kroton também adquiriu a Faculdade Atenas Maranhense (FAMA). O valor foi de R$ 31,6 milhões e a operação foi realizada em maio. Em julho, a empresa adquiriu a Faculdade Educacional de Ponta Grossa, no Paraná, por R$ 8 milhões. Em setembro, foi a vez da Faculdade de Sorriso, no Mato Grosso, por R$ 5,4 milhões.

Para reforçar o caixa e o processo de crescimento, a Kroton captou, no primeiro semestre de 2011, R$ 380 milhões no mercado. Em dezembro, realizou um aumento de capital de R$ 597 milhões, uma das formas de viabilizar a aquisição da Unopar.

Depois de tantas aquisições, veio o desafio não menos difícil, que foi integrar as empresas à Kroton e fazê-las atingir uma margem operacional de 18,5%. “Com 23 aquisições, integração faz parte do nosso negócio” diz ele.

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A companhia desenvolveu uma metodologia própria para otimizar as aquisições. Alguns procedimentos, inclusive, são feitos antes mesmo da compra, como a identificação de sinergias. “Criamos um processo bastante padronizado, que busca integrar modelo acadêmico, sistemas e processos”, afirma Galindo. Esse modelo é válido para escolas de até 7 mil alunos.

Divulgação/Edi Pereira
Universidade de Cuiabá: estratégia de crescimento fora do eixo Sul-Sudeste
Já para a compra de instituições maiores, o prazo é mais elástico. No caso da Unopar, a integração vai durar até dezembro. Um dos motivos é a diferença de culturas entre as duas companhias. Segundo Galindo, quando a aquisição é pequena, o foco está nos processos e nos sistemas. Numa aquisição mais relevante, a cultura organizacional tem de ser colocada em primeiro lugar.

No caso da compra da Unopar, a Kroton dividiu o processo em frentes de integração. Uma delas é a de recursos humanos. Para citar um exemplo, a empresa mede o clima organizacional a cada 30 dias. “A cultura organizacional que fica da soma de duas grandes companhias é uma terceira cultura”, diz ele. “Construímos uma nova empresa com os cases de sucesso de ambas as companhias.”

Apesar de a Kroton ser, segundo Galindo, “uma máquina de integração”, a empresa também tenta avançar por crescimento orgânico, sobretudo por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programa do MEC destinado a financiar prioritariamente estudantes de cursos de graduação. O financiamento é privado, mas com juros subsidiados pelo governo federal. “Este financiamento permite trazer uma nova camada da população para o ensino superior privado brasileiro”, afirma.

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No primeiro semestre, o crescimento de novos alunos impressiona: 47% a mais, em relação ao mesmo período de 2011. Já na base total de alunos, o aumento foi de 23%. No ensino a distância, os números também são positivos: o ingresso de calouros cresceu 37%, enquanto na base total o incremento foi de 24%. “Esse processo registra um crescimento orgânico muito acentuado, acima das nossas projeções”, afirma.

Universidade de Cuiabá: segundo Galindo, padronização é trunfo para a qualidade do ensino
Divulgação/Edi Pereira
Universidade de Cuiabá: segundo Galindo, padronização é trunfo para a qualidade do ensino
O motivo do crescimento pode ser explicado em números. Num curso de R$ 500 mensais, o aluno do Fies paga R$ 17 por mês. Após o término do curso, ele tem 18 meses de carência, pagando o mesmo valor da graduação. Ao final deste prazo, o financiamento é de até 13 anos, a um custo aproximado de R$ 230. “A Kroton é hoje benchmarking nacional na captação de aluno que utiliza o Fies”, diz ele.

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No primeiro semestre de 2010, a empresa tinha cerca de 3,5 mil alunos no Fies. No semestre atual, são 37 mil alunos. Isso equivale um terço da base de estudantes da Kroton.

O Fies também é uma resposta para conter a evasão de estudantes do ensino privado. Cerca de 5% dos alunos que aderiram ao Fies deixam os estudos, contra 15% dos que não aderiram. Além disso, uma pesquisa indica que, dos alunos que abandonaram os estudos, cerca de 75% alegam questões financeiras.

O crescimento orgânico através do Fies e as aquisições fizeram com que a companhia tivesse lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 105 milhões em 2011. Este número é 5% acima do prometido ao mercado no guidance de 2010. A Kroton saiu de um nível de desempenho de 9,8% de margem Ebtida em 2010 para 14,7% no ano passado.

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Os bons resultados financeiros podem ser vistos na avaliação que o mercado faz da empresa. A companhia valia cerca de R$ 950 milhões em maio de 2008, número que chegou a R$ 3,5 bilhões em março. A empresa pretende ainda migrar para o Novo Mercado da Bovespa. Para Galindo, é um passo natural na evolução da governança corporativa.

Para Monteiro, a Kroton teve um dos melhores resultados em comparação com outras aberturas de capital do segmento educacional. “Agora, a empresa precisa acelerar os processos de sinergias”, diz ele. “E aproveitar a capacidade do modelo da Unopar para explorar novos mercados.” Mas para isso tem que vencer a resistência dos alunos em ter aulas com um ensino padronizado. “O posicionamento estratégico da Kroton é o preço”, diz Monteiro. “Em educação, qualidade custa caro.”

Para Galindo, o processo de padronização é o que garante a qualidade de ensino a todas as regiões, de São Paulo ao Amapá. “A Kroton fez uma decisão estratégica, que é oferecer qualidade de ensino para muitos, o que pressupõe escala”, diz. “Na construção do melhor sistema educacional, seja por idealismo ou por pragmatismo, a qualidade é uma premissa inerente ao negócio.”

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