SÃO PAULO - A redução da pressão cambial de outubro para novembro justificou parte da desaceleração do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), cuja alta passou de 0,98% em outubro para 0,38% neste mês. Apesar do repique recente, a influência do dólar foi mais modesta para os preços no atacado este mês, do que no auge do agravamento da crise internacional em outubro.

Também contribuiu para a desaceleração do indicador o fato de os preços de várias commodities terem recuado no mercado internacional, diminuindo assim a pressão sobre insumos e matérias-primas. "Há vários sinais de que estamos num mundo de inflação menor, com menos pressão das commodities e impacto cambial mais moderado", avalia Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Quadros destaca que, embora o índice esteja com alta acumulada de 11,88% em doze meses, bem distante dos 6,23% verificados um ano antes, a média mensal dos últimos quatro meses, de 0,30%, é "totalmente diferente" da observada a partir de maio último, quando o IGP-M começou subir mais de 1% ao mês. "É visivelmente uma indicação de mais estabilidade", diz.

Segundo ele, ainda que a turbulência volte a chacoalhar a cotação do dólar ou que algumas commodities variem de preço, a atividade econômica do país deve se desacelerar, o que funcionará como um estabilizador do índice nos próximos meses. "Não quero me precipitar dizendo (que a inflação) se estabilizou, mas fatores que tiveram impacto mais direto sobre o IGP-M terão com intensidade menor", reforçou, destacando que a temporada de oscilações bruscas, como a queda de 0,32% em agosto e a alta de 0,98% no mês passado, devem diminuir.

Com alta acumulada de 9,95% nos primeiros onze meses deste ano, Quadros acredita que a margem é apertada demais para que o IGP-M feche abaixo de 10% em 2008, mas avalia que as variações acumuladas tendem a diminuir daqui para frente. "Ninguém espera repique cambial ou queda vertiginosa de commodities. Mesmo que o cenário internacional continue se deteriorando, não haverá variações de grande magnitude", avalia Quadros.

No desdobramento do índice neste mês chama atenção o comportamento do Índice de Preços por Atacado (IPA), que reponde por 60% da composição do índice, e desacelerou de 1,24% em outubro para 0,30% neste mês.

Dentro desse componente, destaque para bens intermediários como óleo combustível, que caiu 2,22% em novembro depois de ter fechado estável no mês passado. O querosene de aviação, que havia subido 8,51% em outubro fechou este mês com queda de 0,51%. Fertilizantes passaram de uma alta de 0,87% no mês passado para queda de 4,61% neste mês.

A baixa dos preços do petróleo e o dólar mais moderado contribuíram para esse movimento, que também foi notado em celulose (de 13,07 para 0,07%) e em produtos siderúrgicos (0,51% para 0,07%). Nesse ultimo caso, a variação sofreu influência também de redução de demanda em setores como construção civil, máquinas e equipamentos e automobilístico, que sentiram a freada da atividade com o choque no crédito.

Em alguns bens duráveis, no entanto, a pressão cambial ainda prevalece. É o caso de utilidades domésticas (que inclui televisão, celulares, DVDs), que tiveram baixa de 0,60% em outubro, mas subiram 1,44% neste mês.

"Prever o comportamento do câmbio é sempre difícil, mas considerando que a maior parte da pressão já tenha passado, provavelmente a pressão tende a ser menor agora", ressalva o coordenador.

Entre produtos agropecuários, o feijão, que tem forte peso no índice, caiu 17,76% neste mês após subir 11,58% em outubro. Segundo Quadros, o preço desse produto tem efeito dominante e está compensando algumas altas como a da batata (de 3,02% para 8,58%).

Entre os alimentos industrializados, que inverteram o sinal de alta de 1,95% no mês passado para baixa de 0,20% nesta medição, Quadros destaca a queda de 0,61% na carne bovina, que já pode estar refletindo a retração do mercado externo e o aumento da oferta doméstica aos frigoríficos. No mês passado, o produto havia subido 4,62%.

Já no varejo, os preços de alimentos sustentaram elevação. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que representa 30% da composição do IGP-M, subiu de 0,25% para 0,52% entre outubro e novembro, com alimentação avançando 0,97% neste mês, ante alta de 0,13% no mês anterior.

A desaceleração da demanda do setor de construção civil e a queda de alguns preços de commodities também justificaram a alta de 0,65% do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que compõe os 10% restantes do IGP-M. Nele, os materiais subiram 1,07%, ante aumento de 1,63% um mês antes.

"A desaceleração da atividade econômica não afeta todos os setores ao mesmo tempo e a tendência é (dessa variável) ancorar e dar mais estabilidade ao IGP-M", ponderou Quadros, reforçando que o índice está menos sujeito agora a grandes oscilações.

(Bianca Ribeiro | Valor Online)

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