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GENEBRA - A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em que se tenta salvar a Rodada de Doha começou hoje com as principais potências comerciais entrincheiradas em suas posições e reivindicando concessões junto aos demais para superar o bloqueio das negociações.

O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim disse na reunião que o texto sobre a negociação industrial é baseado "na lógica de forçar os países, especialmente em desenvolvimento", a fazer concessões que vão além do que estão preparados.

Os Estados Unidos disseram que esperam "contribuições mais significativas" dos países emergentes, aos quais reivindicam - em uma posição que compartilham com a UE - que diminuam suas barreiras tarifárias para a entrada de produtos industriais e para o comércio de serviços.

Por outro lado, os países emergentes, como China, Brasil e Índia, querem a maior abertura possível na agricultura, mas pretendem que se mantenha certa proteção no setor industrial para proteger seus incipientes industriais locais.

Por sua vez, a representante de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab, assegurou hoje que seu país quer ser líder nas atuais negociações para desbloquear a Rodada de Doha, mas enfatizou que necessita da ajuda de outras nações.

"Vamos fazer o melhor possível, vamos ser um líder nesta rodada, queremos ser um líder" mas não podemos fazê-lo sozinhos, declarou Schwab aos jornalistas após uma reunião a portas fechadas com os outros ministros que esta semana se reúnem em Genebra.

"Deixamos claro que queremos tomar as rédeas e assumir a liderança e o que fazemos em ajuda interna está inserido nesse contexto", acrescentou Schwab ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de os EUA apresentarem um novo compromisso de redução dos subsídios concedidos a seus agricultores.

O chanceler argentino, Jorge Taiana, denunciou hoje que o mandato original da Rodada de Doha não está sendo cumprido.

"Os princípios de negociação-chave do processo negociador são a reciprocidade menos que plena nos compromissos de redução, que é vital para fazer equitativo o acordo entre países em desenvolvimento e desenvolvidos", ressaltou Taiana em um comunicado divulgado em Genebra.

Já a presidente do Conselho de Ministros da União Européia (UE), a francesa Anne Marie Idrac, destacou que os 27 países-membros fizeram ofertas vantajosas para os países em desenvolvimento no âmbito agrícola e que essa é sua última palavra pois eles não estão dispostos a ceder mais.

Da UE é esperado que abra seus mercados às importações agrícolas de países pobres, já que o bloco mantém reservas e sua posição de continuar protegendo produtos que considera sensíveis.

Antes do início da reunião, o representante europeu nestas negociações, Peter Mandelson, tinha prometido um corte nas tarifas agrícolas de 60%, contra os 54% anunciados pelo bloco.

No entanto, Idrac e a comissária de Agricultura européia, Mariann Fischer Boel, corrigiram as declarações de Mandelson e deixaram claro que não se tratava de uma nova oferta.

Elas disseram que o representante europeu apenas incluiu nesse cálculo o corte aos produtos tropicais que, de acordo com as negociações de Doha, serão submetidos a cortes tarifários mais profundos por serem de interesse prioritário dos países em desenvolvimento.

Boel afirmou que espera que os EUA e outros membros apresentem amanhã números concretos na reunião.

"Tenho certeza que (os EUA) levarão amanhã os números" à negociação, declarou à imprensa Fischer Boel, ao término de uma sessão de um grupo de países, dentro da reunião ministerial da OMC.

Apesar da China manter uma participação tímida nestas negociações diante da imprensa, ninguém duvida de que o papel de Pequim seja crucial e de que muito nesta reunião dependerá do que este país esteja disposto a oferecer particularmente na área industrial.

Embora a diversidade de interesses faça com que as divergências sejam ainda numerosas após sete anos de negociações, há um ponto comum no qual a grande maioria de países coincide: a necessidade de que os EUA aceitem reduzir seus milionários subsídios agrícolas.

Tanto as nações em desenvolvimento como a União Européia consideram que Washington deve reduzir substancialmente suas ajudas internas aos agricultores, pois estas distorcem os preços nos mercados internacionais e constituem uma concorrência desleal para os camponeses dos países pobres.

No entanto, ao contrário dos europeus, os negociadores de países em desenvolvimento dizem que são ainda muito altos os subsídios que seriam permitidos aos EUA caso o texto sobre agricultura for aprovado da forma como está hoje.

Segundo dados divulgados hoje pela Oxfam Internacional, nesse caso, os EUA não teriam que cortar "um centavo em seus atuais subsídios", enquanto que os 27 países-membros da UE só teriam que diminuir "2,6 bilhões de euros de um total de 30 bilhões".

Os EUA negociam um máximo de US$ 16 bilhões de despesas em subsídios anuais mas, por essa ajuda estar ligada ao preço dos produtos agrícolas, a alta destes nos mercados internacionais fazem com que agora eles só desembolsem cerca de US$ 7 bilhões, ou seja, passariam a desembolsar US$ 9 bilhões a mais do que atualmente.

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