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PORTFÓLIO-Saem os investidores, chegam os traders

Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - O índice Dow Jones, o mais conhecido indicador do mercado acionário mundial, está encerrando 2008 mostrando o pior resultado desde os anos 1930.

Reuters |

A queda supera 30 por cento e esse resultado pode ser considerado definitivo mesmo faltando alguns pregões para o ano acabar. Resultado pior só em 1931, quando o Dow Jones caiu 52 por cento. Mais do que isso, a violenta crise de 2008 indica uma nova fase no mercado acionário. Saem os investidores, entram os traders.

Essa avaliação parece pessimista demais, mas é plenamente justificada. As perspectivas são ruins para os investimentos como um todo. A atividade econômica mundial deverá ficar fraca pelo menos até o fim de 2009, com alguns lampejos de entusiasmo aqui e ali, especialmente de países emergentes.

O Brasil está entre eles, mas, isoladamente, esses lampejos serão insuficientes para aquecer a demanda global e reanimar a economia. Economias em baixa representam empresas vendendo menos, lucrando menos e contratando menos. Ou seja, ações com menos fôlego para subir.

As alternativas macroeconômicas tradicionais, a "caixa de ferramentas" keynesiana, que inclui redução de juros, incentivos fiscais, injeção direta de recursos estatais na atividade produtiva e estímulos ao consumo já foi totalmente usada, e sem resultados concretos.

Na terça-feira, dia 16 de dezembro, os Estados Unidos reduziram os juros para praticamente zero e, nos dias que se seguiram, anunciaram um ambicioso programa de estímulos. Alguém deveria lembrar aos formuladores de políticas em Washington que o Japão vem reduzindo juros e construindo pontes e estradas que ligam o nada a lugar nenhum desde 1987, e mesmo assim os resultados são sofríveis. Conclusão, não é daí que virá o ânimo econômico.

Há mais. À séria crise da economia real soma-se uma seriíssima crise no setor financeiro. Bancos e gestores de fundos, que durante as duas últimas décadas forneceram a liquidez que movimentava o mercado, perderam boa parte de sua relevância.

Os principais bancos de investimento norte-americanos deixaram de existir: quebraram, ou transformaram-se em bancos comerciais, com muito menos disposição para agir no mercado. A fraude de Bernard Madoff, acusado de desviar 50 bilhões de dólares dos investidores, deverá ser o último prego no esquife da combalida indústria de hedge funds.

Não será a primeira vez que o mercado perde seu fôlego. A economia norte-americana apresentou um crescimento muito irregular entre 1966 e 1981, devido principalmente aos dois choques do petróleo (1973 e 1979).

Nesses 16 anos, o Dow Jones subiu 11,4 por cento, o que indica uma valorização média de 0,68 por cento ao ano. O cenário era tão assustador que uma capa da revista Time do início dos anos 1970 chegou a discutir se não era o fim das ações.

Nesse quadro, investir --ou seja, deixar de consumir e aplicar os recursos em uma atividade produtiva para aumentar o capital ao longo do tempo-- perdeu sentido.

Os investidores praticamente não ganharam dinheiro. Só lucraram, e muito, aqueles que souberam operar a volatilidade do mercado financeiro, comprando e vendendo ativos sem se preocupar muito com sua qualidade, mas olhando apenas distorções de preço. Só os traders ganharam dinheiro. E esse quadro deverá se repetir.

Analisemos, para estudo, os preços internacionais do petróleo. Em julho de 2008, as cotações chegaram a mais de 147 dólares por barril, o nível mais alto da história. As expectativas de um petróleo cada vez mais alto fizeram as ações da Petrobras explodir devido às descobertas brasileiras do pré-sal.

Mesmo com a exploração difícil e cara de um petróleo enterrado tão profundamente, os investidores se rejubilaram. Os prognósticos de um petróleo a 200 dólares por barril justificavam qualquer investimento.

No dia 18 de dezembro, apenas seis meses depois, o banco UBS divulgou aos seus clientes um relatório em que prevê que o petróleo pode chegar a 20 dólares por barril. Nesse período, o preço do petróleo caiu 100 dólares por barril.

Não há investidor capaz de lucrar com essa oscilação. Apenas um trader, que poderia observar que o petróleo estava caro demais em junho, assumir uma posição vendida e zerá-la com grande ganho em dezembro poderia ganhar com isso.

O que ocorreu com o petróleo, uma oscilação violenta e fora de qualquer parâmetro recente, deverá ser a norma para os preços dos principais ativos negociados no mercado, sejam eles reais ou financeiros.

Ou seja, viveremos por um bom tempo, pelo menos mais um ano, um período em que os traders devem ganhar mais que os investidores.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

A coluna volta a ser publicada em 9 de janeiro de 2009.

(Edição de Alexandre Caverni)

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