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PORTFÓLIO-Por que Wall Street acabou

Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - Setembro de 2008 será lembrado pelos historiadores econômicos como o momento em que toda uma era nas finanças chegou ao fim.

Reuters |

Bancos de investimento que caminhavam para seu segundo século de existência subitamente faliram, foram adquiridos ou transformaram-se em bancos comerciais.

É inacreditável que bancos de investimento desapareçam de um dia para o outro. Por isso, a explicação para a crise é razoavelmente simples: há muito tempo, nomes como Goldman Sachs, Merrill Lynch, Morgan Stanley e o falecido Lehman Brothers não eram mais bancos de investimento.

As raízes dessa transformação são razoavelmente recentes. Em um sentido estrito, elas foram plantadas no início dos anos 1980, mas só floresceram e deram os frutos amargos que estão sendo colhidos no início desta década.

Nos início dos anos 1980, o presidente norte-americano Ronald Reagan promoveu uma das maiores desregulamentações da história econômica dos Estados Unidos.

O fim das barreiras forneceu combustível para a euforia que tomaria conta do mercado nos anos seguintes e permitiu que os bancos de investimento tradicionais realizassem outras atividades. Além de emprestar dinheiro discretamente e de forma indireta, por meio dos empréstimos sindicalizados, os bancos de investimento passaram a ganhar muito administrando seus próprios recursos, chamados no mercado de "proprietary trading".

Esse movimento fazia todo o sentido. Afinal, os bancos de investimento ganhavam belas quantias fazendo duas coisas. Uma era captar recursos para empresas por meio de emissão de ações e títulos de renda fixa. A outra era comprar e vender essa papelada para seus clientes.

FUNDOS DE HEDGE

Ao fazer isso durante décadas, os bancos de investimento tornaram-se os melhores conhecedores do mercado. Por que não usar um pouco do caixa para aproveitar as boas oportunidades?

O problema, como sempre, foi o excesso, aquilo que o ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan definiu como "ganância infecciosa" --Greenspan ganhou um bom dinheiro prestando serviços aos bancos antes de presidir o Fed, mas tudo bem.

Em épocas de redução do ritmo no mercado acionário, os bancos de investimento apostavam, literalmente, todas as fichas na gestão da carteira própria. Ou seja, eles deixaram, na prática, de se comportar como bancos de investimento e passaram a ser fundos de hedge.

Esse foi um dos maiores "segredos de Polichinelo" do mercado financeiro. Um bom exemplo de como esse fato era bem conhecido era o comportamento das ações do Goldman Sachs, considerado um dos puros-sangue do mercado norte-americano.

Se os resultados do Goldman fossem influenciados por sua atividade bancária, o correto seria que suas ações oscilassem em função da variação dos juros nos Estados Unidos. No entanto, as ações oscilavam muito mais em função das variações dos preços das commodities do que em função dos juros, pois cerca de 85 por cento dos resultados do Goldman vinham da gestão de recursos próprios.

Essa situação já era conhecida há cerca de quatro anos, quando o Goldman tentou, e depois desistiu, de comprar o controle do banco de investimentos Pactual, que seria vendido posteriormente aos suíços do UBS.

Na época, um dos executivos que acompanhava a transação explicou que o fracasso dos negócios não seria um grande problema, apesar das excelentes oportunidades que o mercado de capitais ofereceria a partir de 2005. "Quando o Goldman calcula os lucros com a gestão de carteira própria, as atividades de banco de investimento parecem os números de um setor subsidiado", disse ele.

A ênfase na gestão de recursos próprio encorporou os lucros, mas aumentou exponencialmente os riscos. Quando a crise do subprime tornou evidentes os gigantescos prejuízos do mercado de derivativos de crédito, esses bancos não resistiram e se comportaram como os fundos de hedge excessivamente alavancados e quebraram. Esse foi o fim de Wall Street como a conhecemos.

Em tempo: Sadia e Aracruz são a ponta de um iceberg financeiro. Muitas empresas exportadoras vão passar a divulgar grandes prejuízos devido a apostas incorretas no câmbio.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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