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PORTFÓLIO-O Copom entre a cruz e a espada,e a Selic a 15% ao ano

Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 28 e 29 de outubro, será uma das mais difíceis dos últimos anos. Apesar da gritaria geral, que vem até do primeiro escalão do governo, o BC tem sido inflexível no combate à inflação. No entanto, o problema agora é bem mais grave.

Reuters |

Em retrospecto, o trabalho do Copom desde 2002 pode ser dividido em duas fases. A primeira, do início de 2003 a meados de 2004, foi basicamente um esforço para manter a confiança do mercado. O BC reduziu milimetricamente os juros, à medida que a melhora das condições do mercado financeiro internacional assim o permitiam.

A segunda durou de meados de 2004 a meados deste ano, e foi uma prova da maestria do BC em controlar os preços sempre que a economia brasileira acelerava demais seu ritmo. O Copom agiu corretamente em todas as vezes que a inflação ameaçou sair do controle, seja pela demanda interna, seja pelo aumento dos preços internacionais das commodities.

Agora, a situação é diferente. A contração do crédito no mercado internacional já provocou problemas no mercado interno.

A concessão de empréstimos desabou. A piada maldosa que corre é que a longa e surpreendente greve dos bancários está sendo estimulada pelas associações de classe dos banqueiros; com as agências fechadas, não é preciso sofrer o desgaste de negar empréstimos aos clientes.

Ironias à parte, os sinais de desaceleração são muitos. Diversos bancos pequenos tiveram de fazer uso das novas normas do BC para vender suas carteiras de crédito e compensar a falta de liquidez.

Montadoras e empresas de eletroeletrônicos já falam em férias coletivas, e as construtoras notaram um esvaziamento dos plantões de venda de imóveis. Tudo isso recomendaria um afrouxamento da política monetária.

O problema é que essa queda no ritmo de atividade foi acompanhada por uma elevação do dólar, que deverá ter um impacto profundo e ainda não totalmente quantificado sobre os preços.

"A queda dos preços internacionais das commodities não foi suficiente para compensar o efeito da alta de quase 40% do dólar sobre os preços", diz um economista.

Em ocasiões assim, o receituário ortodoxo que vem sendo seguido à risca pelo Copom recomendaria apertar o garrote da economia, reduzindo o ritmo de atividade e evitando o repasse da alta do dólar aos preços internos.

O problema é que essa atitude teria o impacto danoso de cortar o oxigênio do doente que apresentou uma súbita recaída. Os danos ao metabolismo econômico seriam pesados.

O Copom está, portanto, entre a cruz da inflação e a espada da recessão. O que deve acontecer?

Economistas que já participaram das reuniões do Copom são unânimes em apostar na manutenção de uma linha dura pelas autoridades monetárias. Desde sua implantação, em 1999, o Copom tem sido firme em seu propósito de implantar a política de metas de inflação.

Essa firmeza vem ocorrendo mesmo em anos críticos como 2002 e 2008, quando já se sabia bem antes de dezembro que a meta não seria cumprida. "A disciplina do Copom é algo que não ocorria na administração pública desde os tempos em que o Ministério da Fazenda registrava suas decisões com pena de ganso", diz um ex-diretor do BC.

Em seus cálculos, a taxa referencial Selic, que foi elevada de 11,25 por cento ao ano em janeiro para os atuais 13,75%, deverá subir para perto de 15% ao ano nos primeiros meses de 2009 e permanecer nesse patamar por um bom tempo, pelo menos até o fim do ano que vem. É o tempo, dizem os especialistas, que a economia vai levar para purgar os excessos cambiais que foram registrados a partir do segundo semestre deste ano.

As consequências dessa decisão não deverão ser muito diferentes do que consta dos livros-texto. Os especialistas apostam em um dólar oscilando ao redor de uma taxa de 2 reais, em empresas revendo para baixo suas estimativas de resultado e na bolsa de valores exigindo uma dose suplementar de paciência dos investidores.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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