Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - O mercado financeiro internacional encerrou em clima de euforia uma semana que foi marcada pelas piores turbulências em muito tempo.

Depois de amargar as quedas mais fortes desde os atentados de 11 de setembro de 2001, os mercados recuperaram-se com a notícia de que o governo norte-americano vai escancarar as portas de seus cofres para sanear bancos e impedir uma crise sistêmica --decisão que vai alterar profundamente a arquitetura do sistema financeiro internacional. A festa acabou.

O sistema que vai emergir após as medidas de saneamento será muito mais regulado, limitado e engessado do que hoje.

Algumas das medidas anunciadas nesta sexta-feira têm bastante impacto imediato sobre o mercado. O Federal Reserve pretende comprar com desconto dívidas de curto prazo emitidas por Fannie Mae e Freddie Mac e dos bancos estatais que concedem crédito imobiliário.

Além disso, o Tesouro dos EUA vai participar do pacote de ajuda. O Tesouro vai aumentar a oferta de empréstimos sem obrigação de pagamento ('non-recourse loans', em geral pagos com os rendimentos dos recursos aplicados) para os bancos que administram fundos de mercados monetários, os 'money-market funds'.

Esses fundos são considerados os mais seguros entre os investimentos, mas vinham apresentando fortes resgates nos últimos dias. Com isso, os bancos poderão honrar os resgates.

A medida também vai aliviar as restrições ao crédito, que vinham 'engasgando' as empresas norte-americanas, disse Henry Paulson, secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

Os anúncios tiveram impacto profundo e imediato sobre os mercados. O Índice Dow Jones fechou em alta de 3,35 por cento e o Ibovespa disparou 9,57 por cento.

Paulson admitiu que o pacote de ajuda poderá chegar a centenas de bilhões de dólares dos contribuintes. 'Eles vão ser recompensados com a estabilidade do sistema financeiro que esse programa de alívio dos ativos problemáticos dos bancos vai trazer', acrescentou.

REGULAÇÃO

O chefe de Paulson apoiou o subordinado. George W. Bush disse que uma quantidade 'significativa' de recursos dos contribuintes estará em risco, mas a intervenção é necessária para evitar que o sistema financeiro entre em colapso.

'Esse é um momento crucial para a economia, e na história do nosso país, houve momentos que exigiram que nos juntássemos e cruzássemos as linhas partidárias para enfrentar os grandes desafios', disse. Tradução: prezados congressistas, se nós não ajudarmos os bancos o país quebra. Portanto, esqueçam seus contribuintes e aprovem o pacote.'

Essas decisões são necessárias para impedir uma crise sistêmica nos bancos. Sufocados por pilhas de empréstimos de má qualidade concedidos de maneira irresponsável no auge da euforia do mercado, os bancos se arriscavam a quebrar sem essa ajuda. Mas o auxílio não será barato. Ao contrário, terá um custo pesado em termos de regulamentação.

Em rápida entrevista para comentar as medidas, Paulson criticou asperamente a maneira como os bancos vêm sendo fiscalizados e regulamentados. 'Nossa próxima tarefa depois de estabilizar o sistema é melhorar a estrutura regulatória financeira de modo a evitar que tais excessos ocorram', disse Paulson, que classificou o sistema regulatório de ineficiente, duplicado e desatualizado'.

Para bom entendedor, essas palavras são mais do que suficientes.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

(Edição de Daniela Machado)

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