Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

PORTFÓLIO-Dólar ganha força, tendência de queda acabou

Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - Até há poucas semanas, o dólar era considerado a pior opção de investimento do mercado. Do fim de 2007 até o início de agosto, a moeda norte-americana havia perdido quase 12 por cento de valor diante do real, atingindo os menores níveis desde a mudança do regime cambial, em janeiro de 1999.

Reuters |

Tudo isso mudou desde meados de agosto.

O dólar passou a subir de forma contínua. Apesar da queda de quase 2 por cento nesta sexta-feira, as cotações ainda estão levemente acima do fechamento de 2007. O dólar tem apresentado oscilações violentas, superiores a 2 por cento em um só dia, e voltou ao radar dos investidores. Aos trancos e barrancos, o dólar perdeu a tendência de queda e pode fechar o ano perto de 1,80 reais.

As projeções do mercado ainda não mostram essa tendência. A última pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central indica que as projeções do mercado para o câmbio em dezembro próximo ainda são de 1,65 reais, uma queda de mais de 7 por cento em relação às cotações desta sexta-feira.

Mesmo assim, os especialistas apostam em um movimento consistente de valorização do dólar. A próxima pesquisa Focus deve mostrar novos avanços no dólar esperado para dezembro.

Essa alta tem dois grandes motivos. O primeiro são as expectativas cada vez menores para superávit da balança comercial brasileira. No início do ano, o mercado projetava superávit de quase 32 bilhões de dólares. No fim de agosto, essa projeção estava em pouco mais de 23 bilhões de dólares e deve cair ainda mais, devido ao perfil da balança.

A fatia preponderante das exportações são commodities agrícolas e minerais, cujos preços vinham surfando uma das mais consistentes ondas de valorização das últimas décadas.

Embaladas pelas perspectivas de aumento indefinido da demanda da China e, em menos escala, da Índia, as commodities exportadas sustentaram uma enxurrada de dólares para o Brasil.

Mais do que isso, um cardume de hedge funds vinha especulando há meses em commodities cada vez mais caras, aumentando o fôlego das cotações.

Nas últimas semanas, ao perceber que as principais economias --Estados Unidos, Europa, China e Japão-- não estão tão pujantes quanto se imaginava, esses fundos mudaram subitamente a direção de suas apostas e os preços desabaram. O melhor exemplo é o petróleo, que custava 144 dólares o barril em meados de julho e encerra a semana ao redor de 100 dólares.

A alta do dólar aumenta o valor em reais que o exportador brasileiro de commodities recebe, mas esse aumento não é suficiente --nem de longe-- para compensar a queda dos preços internacionais. Ou seja, além de exportar menos devido à retração da economia, o exportador venderá mais barato.

Mais de um especialista já aposta, informalmente, em superávit ao redor de 20 bilhões de dólares em 2008, representando o menor saldo desde os 13 bilhões de dólares de 2002.

A segunda causa para a alta do dólar são os pesados resgates de investimentos internancionais do mercado brasileiro. Os investimentos diretos vão bem, obrigado. Mas os investimentos em portfólio continuam saindo aos borbotões.

Não que os investidores de fora desconfiem da pujança da economia brasileira e da solidez de nossas empresas e bancos. O que acontece é que eles têm de resgatar o que for possível para cobrir as pesadas perdas com os títulos e ações de bancos dos Estados Unidos, que não param de desabar.

Seria temerário dizer que vai faltar dólar, até porque o Brasil tem vastas reservas em moeda norte-americana e o endividamento em dólares é perfeitamente controlável. Mesmo assim, a divisa engatou um movimento consistente de alta.

Mais grave do que isso, devido às condições do mercado internacional --o dólar sai não devido à uma fuga para a qualidade, mas devido à necessidade de cobrir prejuízos-- o receituário clássico de conter a inflação e atrair dólares elevando juros deverá ter sua eficácia limitada nos próximos meses.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG