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PORTFÓLIO-Até Mr. Buffett vai a Las Vegas

Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - O megainvestidor Warren Buffett é o primeiro ou segundo homem mais rico do mundo, dependendo do humor da bolsa (quando as ações não vão tão bem, ele cede a liderança para o amigo pessoal Bill Gates).

Reuters |

Sua fortuna está avaliada em 62 bilhões de dólares, a quase totalidade investida em ações de empresas que ele mesmo escolhe cuidadosamente. No entanto, seu último movimento custou-lhe um prejuízo de quase 3 bilhões de dólares e surpreendeu o mercado, acostumado com a aura de infalível de Buffett.

Ele é considerado o mais competente de todos os investidores, tendo construído sua fortuna a partir do zero desde 1956. No entanto, seu mais recente movimento, a compra de 5 bilhões de dólares em ações do banco de investimentos Goldman, Sachs, colocou sua capacidade de fazer escolhas em xeque.

Buffett perdeu quase 4 por cento de seu patrimônio em apenas três meses, o que mostra que ele, desta vez, deixou de investir e preferiu fazer uma aposta. Ou seja, após completar 78 anos, Buffett descobriu o caminho de Las Vegas.

Relembrando. No que parecia ser o pior momento da crise, Buffett anunciou que estava assumindo parte do papel do Tesouro dos Estados Unidos, socorrendo o mais influente, respeitado e poderoso banco de investimentos americano, o Goldman, Sachs.

O bilionário comprou 5 bilhões de dólares em ações ordinárias e 5 bilhões em ações preferenciais do tipo norte-americano, que pagam juros. No caso, ele vai receber 10 por cento ao ano até o Goldman recomprar as ações, mas para isso o banco terá que pagar uma multa de 10 por cento.

Considerando apenas as ordinárias, ao preço da ocasião, ele comprou ações que valiam cerca de 125 dólares. Na sexta-feira, dia 12 de dezembro, essas ações eram cotadas a pouco menos de 70 dólares, o que representa, em termos redondos, uma queda de 44 por cento, ou um prejuízo de 2,2 bilhões de dólares. Muito dinheiro, mesmo para Buffett.

Buffett seria o primeiro a repetir um de seus próprios mantras. "Quem pensa no curto prazo não deveria passar nem perto de Wall Street", diz ele. Ou seja, na abordagem de longuíssimo prazo que ele adota para investir, essa queda é apenas uma turbulência insignificante de percurso. O problema, porém, não está na queda dos preços, mas nos fatos subjacentes a essa queda.

Buffett sempre defendeu a compra de negócios sólidos e previsíveis, que sejam compreensíveis, geridos por pessoas confiáveis e que estejam precificados incorretamente pelo mercado. Nada disso se aplica ao Goldman.

Ao investir no banco de investimentos, ele comprou o mais etéreo dos ativos, as relações comerciais dos executivos do Goldman Sachs com seus clientes e a capacidade de seus operadores de gerir o patrimônio bilionário do banco. Todos esses fatores estão correndo fortes riscos.

Em primeiro lugar, há menos empresas, menos investidores e menos dinheiro em circulação, o que quer dizer menos oportunidades para bancos de investimento --os que ainda existem, claro-- ganharem dinheiro.

Além disso, boa parte dos lucros do Goldman nos últimos tempos vieram da gestão do próprio dinheiro, aproveitando a volatilidade do mercado. Há menos oportunidades de investimento, e as que existem são muito mais arriscadas do que há alguns meses.

Há mais. Poucos executivos-chefes seriam capazes de entender, para não dizer opinar, as operações de derivativos concebidas por suas tesourarias. Buffett é um homem brilhante, mas não onisciente, o que eleva os riscos em mais um ponto.

Finalmente, a grande questão é se um banco como o Goldman Sachs pode ser considerado um negócio previsível.

Buffett defendeu um investimento feito na fabricante de goma de mascar americana Wrigley's dizendo: "não imagino que a Internet mude a forma como as pessoas mascam chiclete".

No caso do Goldman, as atividades básicas de qualquer banco de investimentos --subscrição de ações e títulos, fusões e aquisições, levantamento de empréstimos sindicalizados, por exemplo-- dependem muito de condições específicas de mercado e podem variar violentamente de um trimestre para o outro.

Empresas industriais ou de varejo seguem uma lógica do contínuo --as variações são mensuráveis ao longo do tempo. Já bancos de investimento seguem uma lógica probabilística e binária --o sucesso de hoje pode ser seguido pela bancarrota de amanhã, e isso ocorrerá sem aviso prévio. Ou seja, Buffett trilhou um caminho que fala mais de especulação e aposta do que de investimentos.

E, para finalizar com uma de suas máximas favoritas: "se você sentar-se a uma mesa de pôquer e não descobrir quem é o pato em meia hora, levante-se e vá embora, pois o pato é você".

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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