A portabilidade numérica, mecanismo que permite ao cliente trocar de operadora mantendo o mesmo número, deve trazer mudanças na política das operadoras móveis quanto ao subsídio de aparelhos. Especialistas em telecomunicações acreditam que o foco da subvenção deixará de ser a briga por participação de mercado.

O recurso servirá com instrumento de retenção do consumidor.

"Com a portabilidade, mais vale reter um cliente que gasta acima da média do que atrair um que não trará tal retorno. Isto é o que vale para os acionistas destas companhias", afirma o analista em telecomunicações da consultoria IDC Brasil, Vinícius Caetano. Segundo ele, o subsídio a aparelhos, inclusive de pré-pagos, foi muito importante entre 2003 e 2006, quando as operadoras estavam brigando por market share.

Ainda de acordo com Caetano, a subvenção ficará restrita a aparelhos mais caros, que estimulem a transmissão de dados, principalmente com a utilização da tecnologia 3G. Ele ressalta, no entanto, que esta nova visão estratégica de subsídios só deve entrar em prática a partir de meados do ano que vem, quando a portabilidade já estiver disponível em todo o território nacional.

A redução nos subsídios só não será mais agressiva por conta do contrato de fidelidade que os clientes assinam com as operadoras ao adquirirem aparelhos subvencionados. De acordo com a legislação, este comprometimento determinado em contrato pode durar até um ano, sendo passível de multa quando rescindido. "Estes contratos garantem que as empresas recebam de volta o subsídio dado aos aparelhos. Mas, certamente, as operadoras estarão mais atentas aos clientes que, de fato, trazem retorno. Caso contrário, a operadora fica no zero a zero", afirma Alex Pardellas, analista de telecomunicações do Banif Investment Banking.

Caetano, da IDC, lembra que em outros países o período de contrato de fidelidade pode chegar a dois anos. "Aí, fica mais fácil subsidiar, por exemplo, um IPhone porque o prazo para o retorno é maior".

Pardellas acrescenta que a manutenção do número era um dos mais importantes retentores de clientes pós-pagos nas operadoras, mas que "o subsídio pode assumir este papel". A preocupação em manter os consumidores que não queriam perder seus números é confirmada pela diretora de Marketing da Oi, Flávia Bittencourt. "As empresas farão de tudo para reter estes clientes. O cliente não terá mais a algema do número", afirma ela. Entretanto, desde 2006 a Oi não subsidia os equipamentos e, segundo Flávia, manterá esta política. "Aparelho não agrega valor. Optamos por subsidiar o crédito. O cliente escolhe o que quer fazer com este valor, que pode ser descontado de sua conta ou até se transformar em bônus em seu cartão de crédito", diz, sem revelar valores envolvidos nestes subsídios nem a quantidade de aparelhos.

Já a Vivo, apontada como uma das empresas com política mais agressiva de subsídios, diz que ainda é cedo para se prever o rumo que esta prática poderá tomar com a portabilidade. Também sem detalhar os números dessa política, a empresa responde com uma nota sucinta à questão: "O subsídio de aparelhos é um dos benefícios ofertados aos consumidores, e é um dos principais responsáveis pelo sucesso destes dez anos de privatização do setor. Sem ele, não se chegaria ao estágio atual de inclusão digital e penetração da telefonia móvel no País". Ambas as empresas, no entanto, defendem que o grande diferencial na portabilidade virá pela busca da qualidade e o atendimento ao cliente.

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