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Pôquer não é um jogo de azar, diz perito

Para Ricardo Molina, jogo de cartas exige habilidade e capacidade de leitura do oponente; jogo de azar é monopólio do Estado

Gustavo Poloni, enviado especial a São José dos Campos |

O perito Ricardo Molina não entende a polêmica sobre a legalidade do Texas Hold’Em, modalidade mais popular do pôquer. Depois de estudar o jogo, chegou à conclusão de que as vitórias de um jogador na mesa de carteado não dependem do acaso (não gosta de falar em sorte ou azar), e sim da habilidade em contar carta e ler corretamente as reações do seu oponente.Conhecido por trabalhar em casos de grande repercussão, como o assassinato de Paulo César Farias (PC Farias), tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello à presidência, e do assassinato da menina Isabella, jogada da janela pelo pai e a madrasta, ele acredita que problema está na lei, que define o jogo de azar como aquele que depende “única e exclusivamente da sorte”. “Jogo de azar não é proibido no Brasil”, disse Molina ao iG do seu escritório em Campinas, no interior de São Paulo. “O que é proibido são empresas privadas explorarem os jogos de azar”. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

AE
Depois de estudar dezenas de mãos, o perito Ricardo Molina garante que o pôquer não é um jogo de azar
iG: Por que o senhor resolveu estudar o pôquer?

Ricardo Molina: Um cliente que estava querendo abrir um clube de pôquer pediu um laudo para saber qual é a parcela de sorte, azar e habilidade na modalidade Texas Hold’Em. Todo jogo que tem uma parcela de azar, mesmo o futebol. Durante a Copa do Mundo, o Uruguai fez um gol na África do Sul depois que a bola bateu nas costas de um zagueiro e encobriu o goleiro. A questão é saber onde está o limite. O estudo mostrou que o jogador mais habilidoso ganha no Texas Hold’Em. Em uma rodada o fator sorte é preponderante, mas uma partida não se resume a uma rodada. Não há dúvida de que habilidade é preponderante no longo termo.

iG: Como o senhor chegou a essa conclusão?

Molina: Vamos dizer que 0,1% do jogo seja habilidade. Quando aplicamos isso numa equação matemática, aquele componente que era pequeno vai se acumulando. No longo prazo, quem tem mais habilidade vence. É um jogo onde a sorte influencia, mas ganha o mais habilidoso. Analisamos as rodadas de campeonatos e concluímos que mais de 60% das mãos vencedoras não tinham o melhor jogo. O bom jogador ganha na habilidade de apostar, de persuadir o oponente. Ele tem de fazer contas, analisar a quantidade de apostas do outro. Com isso, imagina o que o adversário tem e pensa no seu próximo passo. É mais uma prova de que não é a sorte o preponderante. Tem um ditado famoso no Texas Hold’Em que diz que se você não sabe quem é o pato na mesa, é porque o pato é você.

iG: Qual é a importância da sorte no resultado do pôquer?

Molina: Prefiro não falar em sorte ou azar, mas no acaso. O que é azar para um é sorte para outro, já o acaso está presente em todos os momentos. É como pegar uma moeda e jogar cara e coroa. No curto prazo pode acontecer de ter mais cara do que coroa. Mas se você jogar insistentemente vai chegar o momento em que o número vai se igualar porque a probabilidade é a mesma. No Texas Hold’em é a mesma coisa. A sorte é um mito que jogador inventa para continuar jogando. A probabilidade de pegar um jogo bom é igual para todos. E aí qual é o fator que vai pesar? Habilidade.

iG: Mas nunca sabemos o que vai sair na próxima carta. Isso não é sorte ou azar?

Molina: O jogo que você vai receber está definido pelo acaso. Até o momento em que recebe as cartas é acaso. Mas acaso em termos. A cada vez que você perde uma rodada, o fato de prosseguir ou não no jogo depende de uma análise, e a análise depende de habilidade. O jogador tem de tentar avaliar as chances de continuar no jogo e ganhar. Como as cartas são distribuídas a cada rodada, o fator habilidade se manifesta a cada vez que recebe a carta. O fator habilidade funciona o tempo todo.

iG: Como a habilidade e o conhecimento do pôquer influenciam no resultado?

Molina: O jogador usa vários tipos de habilidade durante o jogo, mas dois são importantes: contar carta e avaliar o comportamento do oponente. O bom jogador fica de olho no que o adversário faz, se muda de comportamento quando pega um jogo bom, se aposta, se tem reação ou cacoete. Não é à toa que os bons jogadores usam óculos escuros. A pupila se contrai com variação do estado emocional. Se ele recebe um jogo bom, a pupila mexe e o oponente vê isso. É um jogo de psicologia. É um jogo de psicologia muito mais do que sorte.

iG: O que é mais importante na hora de jogar pôquer: sorte, conhecimento matemático ou fazer uma boa leitura do seu oponente?

Molina: No Texas Hold’Em, leitura do oponente. Mas isso varia de um jogo para outro. Em Black Jack é mais importante contar a carta, tanto é que cassinos fazem de tudo para dificultar isso. O cara que tem memória sabe qual é a melhor hora de parar ou continuar no jogo. No Texas Hold’em o jogador não troca carta, ele tem de avaliar o comportamento do oponente e ganha quando sabe que seu adversário vai desistir, quando ele não tem jogo ou quando está blefando.

iG: Em abril o pôquer foi aceito pela Associação Internacional dos Esportes da Mente (IMSA), que abriga o xadrez, dama e outros jogos de tabuleiro. O senhor acha que ele pode ser comparado a esses jogos?

Molina: O xadrez é um jogo em que o fator acaso tem pouquíssima influência. Não digo nenhuma porque não acredito que jogos não tenham acaso, um jogador pode ter uma dor de cabeça e vai prejudicar a performance dele. O xadrez é um jogo que quem jogar melhor ganha. No Texas Hold’Em nem sempre é assim. É assim no longo termo. Quem jogar muitas mãos e for mais habilidoso ganha.

iG: Na sua opinião o pôquer é um jogo que depende única e exclusivamente da sorte?

Molina: Isso é bobagem. Acho que o Texas Hold’em deveria ser permitido porque é predominantemente de habilidade, ao contrário da loteria. Esse, sim, é exclusivamente de azar.

iG: O pôquer deveria ser legalizado?

Molina: Sim. Para mim o pôquer é muito parecido com o turfe. As pessoas apostam no cavalo que acham que vai ganhar porque conhecem o histórico dos cavalos, dos jóqueis. Mas sempre tem o azarão que ganha. Se proibir o Texas Hold’Em tem de proibir o turfe. Outras coisas que são predominantemente jogos de azar. É o caso do caça-níquel. A verdade é que a lei sobre jogos de azar está mal redigida. Eles não querem melhorá-la porque senão teria de proibir loterias, como a Mega Sena. Jogo de azar não é proibido no Brasil. O que é proibido são empresas privadas explorarem os jogos de azar.
 

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