O plano de Obama para tirar a economia da recessão não agradou ao mercado financeiro, que queria mais dinheiro e mais esclarecimentos sobre como será aplicado. Não teve um nem outro.

O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, não soube se explicar. Apresentou a primeira parte e prometeu a segunda para depois.

Mas era nessa "segunda parte" que estavam os detalhes sobre como iria viabilizar o socorro de US$ 2 trilhões aos grandes bancos em dificuldade. Foi uma decepção.

A grande dúvida era saber as condições em que o setor privado iria investir, com o governo, na criação de uma espécie de fundo de até US$ 1 trilhão. Esperava-se muito mais do que veio. Na terça-feira a bolsa americana caiu até 5%, mas, no dia seguinte, com base em mais informações de Geithner, os investidores voltaram a comprar e os índices recuperaram o que haviam perdido no dia anterior. E o nervosismo histérico do mercado passou...

Teria o secretário do Tesouro se precipitado ao anunciar apenas uma parte do plano? Aparentemente, não. Ontem, Geithner foi à Comissão de Orçamento do Senado esclarecer dúvidas e justificou a atitude do governo.

"Eu entendo completamente o desejo de detalhes e comprometimentos, mas nós vamos fazer isso com muito cuidado para não nos colocarmos na mesma posição de antes,quando havia "inícios rápidos e mudanças de estratégia",afirmou ele aos senadores.

CORTES

Registre-se, a propósito, que foi esse mesmo Senado que cortou, no plano de Obama, recursos destinados à educação e saúde para reduzir mais os impostos, o que agrada mais os eleitores... Nada muda na face da terra...

O secretário do Tesouro também deu a entender que, provavelmente, mais recursos serão necessários para voltar a socorrer os grandes bancos, mas isso ainda estava sendo avaliado. O governo vai ouvir, investigar, avaliar e depois decidir.

Faz sentido. Na verdade, não se sabe ainda as dimensões das perdas dos grandes bancos e outras instituições financeiras dos Estados Unidos. O mercado as estima em algo em torno de US$ 3 trilhões. Pode ser mais, não menos.

O governo só não pode saber quanto. Por enquanto há ainda US$ 350 bilhões do pacote anterior de Bush - que não funcionou - para se utilizar.

O PACOTE É BOM,SIM

Foi uma pena que a reação histérica do mercado tenha ocultado o verdadeiro sentido do plano. Afinal, nem tudo é mercado financeiro. Sei que dele dependem os empréstimos para o o setor produtivo, principalmente ao comércio e ao consumo, mas há muito dinheiro no plano para reanimar a economia.

São US$ 838 bilhões para investir em em educação (mais escolas de melhor qualidade), saúde, infraestrutura, ajuda aos pobres e desempregados, crédito tributário para os mutuários em dificuldade para pagar as prestações da hipoteca, incentivo para a classe média... Vejam no caderno de Economia de ontem quadro especificando os valores por setor.

OBAMA FEZ COMÍCIO!
Ainda é pouco? Pode ser, o próprio Obama admitiu. Mas era o que se poderia conseguir rapidamente do Congresso. Basta ver que, nos dias de discussão e votação do plano, ele foi obrigado a ir a público e fazer um verdadeiro comício em uma das regiões mais atingidas pelo desemprego para pressionar o Senado. Ou o Congresso aprova logo, ou será uma catástrofe, exclamou ele. Vamos perder mais empregos, o que podemos evitar agora, afirmou, ele usando a ultima palavra que existe antes de caos.

Desde Roosevelt, os americanos nunca tinham visto algo semelhante.

CRÍTICAS PARCIAIS

Economistas não chegaram a criticar, mas fizeram reservas, como sempre. Porém, ninguém contestou o melhor do plano: ele pode criar 4 milhões de empregos em dois anos. É isso o que os Estados Unidos, a Europa, o Brasil, enfim, todo o mundo precisa agora. Lula não cansa de afirmar que a prioridade é a criação de empregos e mais empregos.

E NÓS?
Temos de esperar.O plano só terá resultado a médio e longo prazo. Esta é a realidade, sem rodeios. Em um primeiro momento, pode até nos prejudicar, se o plano absorver recursos que estariam sendo encaminhado para os países emergentes, onde renderiam mais. Nossos ganhos seriam com a relativa normalização do mercado financeiro internacional e, principalmente, com um possível aumento do comércio. Mas também aqui a situação não tende a melhorar neste ano.

Ontem, o governo americano anunciou retração do déficit comercial de 4% por causa de uma queda nas importações. Em doze meses, ele recuou US$ 153,2 bilhões. É o que o mundo deixou de exportar para o seu maior mercado. E pode ser o que deixou de produzir.

A SAÍDA ESTÁ AQUI

Em médio prazo, não podemos contar muito com o comércio exterior. Nem com os Estados Unidos, a Europa e muito menos com a China. Os últimos indicadores chineses são preocupantes. Eles estão importando bem menos nos últimos três meses e estimulando consideravelmente o mercado interno para crescer. É este o nosso caminho. Por enquanto, não há outro. Mas não com protecionismo míope, mas com um ousado e vigoroso incentivo à demanda interna, enquanto a economia mundial não sair da recessão.

É o que o governo está fazendo e deve agora intensificar ainda mais. Nessas circunstâncias, este ano não poderemos contar com mais ninguém. Só com nós mesmos.

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