O solavanco cambial de ontem, que levou o dólar a fechar em R$ 2,28, após ser cotado a R$ 2,45, surpreendeu as empresas, que reagiram de formas distintas, de acordo com a exposição de cada setor à moeda americana. Na Petrobrás, o diretor financeiro Almir Barbassa disse atravessar ao largo da oscilação cambial, mas demonstrou preocupação com as especulações.

"É muito difícil avaliar o movimento do câmbio apenas por um dia, movido por especulações. Num primeiro momento, o impacto para a Petrobrás poderia ser até positivo, já que a empresa tem mais ativos no exterior do que dívidas em dólar", disse, lembrando que no balanço financeiro do segundo trimestre a estatal sofreu impacto negativo da queda do dólar.

A Petrobrás trabalha com um dólar médio de R$ 1,90 nos contratos e está "totalmente com hedge (proteção)", comentou. "Não estamos vendidos em dólar. Não temos nenhum movimento neste sentido", frisou. Sobre o impacto da alta do dólar nos preços dos combustíveis, o diretor lembrou que hoje a Petrobrás exporta o mesmo volume que importa. Portanto, a queda no valor do barril de petróleo nas últimas semanas "compensou" a alta do dólar e manteve os custos e ganhos.

A Quattor, petroquímica formada da associação entre Unipar (60%) e Petrobrás (40%), tem expressiva dívida em dólar, por causa do investimento de cerca de R$ 6 bilhões assumido na sua criação no ano passado. Mas o câmbio não trará impacto real à empresa, afirma o vice-presidente corporativo, Helio Novaes. Ele admite, porém, que é esperado um impacto contábil. "É um cenário pesado, mas temos uma dívida constituída para expansão de atividades. Portanto, é uma dívida operacional e de longo prazo. Não temos nenhum impacto de caixa nesse instante, porque não há saída de dívida agora. Isso causa uma visão mais feia no momento inicial, do ponto de vista de dados contábeis."

A empresa, que administra ativos no Rio e em São Paulo, vive atualmente um momento comum às petroquímicas: nas últimas duas semanas foi constatada redução de demanda - ainda não quantificada - em razão do agravamento da crise. Mas o executivo argumenta que isso não pode ser visto como tendência e diz que a empresa, apesar de já ter adotado medidas de contenção de custos, não sofreu impacto.

Também como outras petroquímicas, a Quattor usa matéria-prima dolarizada, mesmo a de origem nacional, já que o preço da nafta é ditado pelo mercado internacional. Mas, na outra ponta, também tem receita em dólar. "Está tudo meio casado." Ele comemorou a atuação do Banco Central ontem, com operações de venda de dólares no mercado à vista. "O que estava faltando era o Banco Central entrar no mercado de câmbio à vista. O banco estava fazendo operações no dólar futuro, por isso o câmbio não estava cedendo. Agora, o fechamento com o dólar a R$ 2,28 é quase como um alívio", comentou Novaes.

O presidente da MRS Logística, Júlio Fontana, acredita que a escalada do dólar não deve trazer impactos negativos para as finanças da empresa. A MRS detém dívida bruta de cerca de R$ 1 bilhão, sendo metade em moeda estrangeira. "Desse montante em dólar, 70% estão protegidos. Isto nos deixa numa situação menos desconfortável", afirma ele.

Fontana acrescenta que a empresa também não teme a falta de crédito para os investimentos previstos para 2009, de R$ 1,2 bilhão. "Estamos em fase de assinatura de dois financiamentos no BNDES. O primeiro na modalidade de crédito pré-aprovado nos permitirá o desembolso de R$ 360 milhões. O outro, de cerca de R$ 300 milhões, será voltado para um pacote de projetos."

O restante, cerca de R$ 600 milhões, seria proveniente do próprio caixa da empresa. "Já estávamos nos preparando para isso", comenta. A empresa dará prazo até o fim deste mês para que seus clientes informem quais projetos de expansão foram, de fato, mantidos para o ano que vem.

"Nossos investimentos acontecem sob aumento de demanda dos clientes, por meio de contratos de longo prazo. Claro que teremos mais parcimônia na liberação dos recursos. Usaremos um olho muito mais clínico. E o custo do dinheiro mudou." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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