Mas os bancos emprestarão uns aos outros? Ao se encerrar o fim de semana em que quase todos os grandes banqueiros e ministros das Finanças do mundo se reuniram em Washington para tentar estancar a crise de crédito global, não havia nenhuma garantia de que o crédito fluiria quando os mercados reabrissem esta semana. Num esforço para fazer o crédito circular, líderes europeus prometeram garantir novos empréstimos a bancos que deixaram de emprestar uns aos outros.

Mas eles deixaram ao governo de cada país os detalhes sobre como seu próprio sistema bancário seria protegido. Até a intensificação da crise de crédito depois que o Lehman Brothers quebrou, os bancos emprestavam livremente uns aos outros. Isso assegurava que cada banco teria dinheiro para qualquer fim comercial, como emprestar a seus clientes.

Mas depois que o colapso do Lehman resultou em alguns bancos não receberem o dinheiro devido, os bancos se acautelaram de emprestar a outros temendo que a situação se repetisse e não conseguir empréstimos, e implicou na menor disposição de emprestar a empresas.

Essa crise de confiança levantou temores de uma recessão profunda e ajudou a precipitar a forte queda do mercado acionário da semana passada. Essa relutância dos bancos em emprestar uns aos outros reduziu a confiança no sistema financeiro, enquanto investidores questionavam por que deveriam ter fé em bancos se outros não confiavam em seus pares.

Muitas das medidas de amparo financeiro apresentadas por líderes americanos e europeus têm o objetivo de recuperar a confiança. Mas enquanto não ficar claro que um retorno à normalidade nos empréstimos interbancários restaurará a disponibilidade de crédito a empresas, é difícil imaginar que isso ocorra.

Os Estados Unidos até agora não adotaram essas garantias, que iriam muito além de práticas anteriores e arrastariam o governo ainda mais rapidamente para o centro da crise financeira. Em vez disso, para ajudar diretamente as empresas, o governo americano já concordou em fazer empréstimos a empresas que não puderem mais captar recursos no mercado de commercial paper, e o Congresso aprovou um fundo de resgate de U$ 700 bilhões que será usado para comprar ativos de bancos e ações. Ele também elevou o nível de seguro de depósitos em bancos de U$ 100 mil para U$ 250 mil por depositante.

E apesar do coro crescente de vozes insistir para o governo estudar a garantia de empréstimos interbancários, existe um temor de que essa medida poderia colocar os contribuintes em risco maior, se um banco em situação falimentar tomasse emprestado pesadamente nesse mercado.

Procurando tranqüilizar os investidores de que os sistemas financeiros voltariam ao normal, os ministros das Finanças do G-7, o grupo dos principais países industriais, anunciou um conjunto de cinco princípios gerais na sexta-feira. Os banqueiros imediatamente reclamaram que precisavam de mais informações e continuaram relutantes em emprestar até que os políticos fossem mais claros o funcionamento.

"São os princípios certos", disse Josef Ackerman, presidente-executivo do Deutsche Bank. "Ele precisa de mais detalhes específicos." O anunciou europeu no domingo, feito depois de uma reunião de cúpula em Paris, não incluiu um fundo de âmbito europeu por causa da resistência de alguns governos que temiam ter que salvar bancos de outros países.

Isso tornaria possível que alguns bancos levassem vantagem competitiva por ter garantias de um governo que fosse considerado capaz de cumprir suas novas obrigações se um grande banco quebrasse.

"Quando isso tiver sido assimilado, as pessoas vão pensar nos balanços consolidados de governos", disse Simon Johnson, um ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e hoje professor de economia no Massachusetts Institute of Technology.

"Alguns desses bancos têm balanços de U$ 2 trilhões a U$ 3 trilhões, o que é imenso em comparação com a capacidade" de governos como os da Grã-Bretanha e da Alemanha, disse ele. Johnson acrescentou que os EUA podem ter de acompanhar a medida se a Europa decidir por garantias efetivas.

Sem um padrão internacional uniforme para essas garantias, Ackerman advertiu que o dinheiro fluiria de sistemas bancários não protegidos para os protegidos, no que é conhecido como "arbitragem regulatória". Isso também poderia acontecer nos EUA se os empréstimos entre bancos comerciais fossem garantidos, mas os empréstimos a associações de poupança, corretoras e companhias de seguro não.

Por trás disso existe um outro risco à espreita: alguns banqueiros disseram que não ousavam retomar os empréstimos normais no mercado interbancário em parte porque os investidores poderiam pensar que bancos fazendo empréstimos a instituições mais fracas estavam assumindo um risco excessivo. Uma promessa dos ministros das Finanças foi "apoiar sistemicamente instituições financeiras importantes e impedir a sua quebra." Na sexta-feira, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, não quis dizer se o Goldman Sachs, o banco que ele dirigia, ou o Morgan Stanley, cujas ações desabaram, se incluiriam nessas instituições. No domingo, porém, o governo pareceu pronto a fornecer algum tipo de respaldo a essas companhias.

Parte do fim de semana foi dedicada a promessas de que isso jamais aconteceria de novo, com os banqueiros dizendo que fortaleceram seus sistemas de gestão de risco e esperavam a realização de novos acordos regulatórios.

Richard Fisher, presidente do Federal Reserve Bank of Dallas, disse que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) agiu com presteza para sustar a crise e faria mais se fosse necessário. Mas silenciou sobre que papel, se algum, o Fed jogou na produção da crise. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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