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Pastore: #145;Estamos apenas saindo do fundo do poço #146;

A consultoria A.C.

Agência Estado |

Pastore & Associados, do ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore, publicou terça-feira um relatório em que a palavra cautela é citada quatro vezes. As duas primeiras dizem respeito à inflação corrente, que, segundo o texto, "teima em não declinar", o que pode levar o BC a ser mais cuidadoso com a queda da taxa de juros. A terceira e a quarta citações estão relacionadas ao aumento dos gastos públicos em meio à crise. Com a "inexorável perda de arrecadação", diz o relatório, o governo deveria agir com mais prudência.

Em conversa com o Estado, Pastore recorre de novo à palavra. Mas para falar de outro assunto que o angustia: a suposta melhora da atividade econômica, expressa em indicadores divulgados nos últimos dias. Entre eles, a produção de automóveis em janeiro, que disparou 92,7% em relação a dezembro. "O momento exige cautela", diz Pastore. "O cuidado que temos de tomar é não confundir o final do ciclo de estoques com o início de uma recuperação sustentada."

O relatório diz que comemorar um provável "rebote" da produção seria um erro. Por quê?

Há dois movimentos ocorrendo. Um deles é transitório, ou seja, esse ciclo de estoques muito concentrado no setor automobilístico. O pessoal errou a mão quando caiu a demanda e teve de promover um "fire sale" (queima de estoques) e parar a produção. Essa componente transitória está chegando ao fim. Mas há a componente persistente. A crise que estamos vivendo no mundo tem muitas dimensões, sendo uma delas esse processo de destruição de riqueza "falsa", que estava fundamentada em preços de ativos não sustentáveis. Isso gerou no mundo desenvolvido um nível de consumo extremamente elevado, que ajudou a puxar os preços de commodities para cima e beneficiou países emergentes. Sustentamos déficits nas contas correntes por causa desse ciclo. No momento em que a crise eclode, bate em todos os emergentes e traz uma contração da demanda. As quedas são muito semelhantes em todos os países. Quando acaba a componente transitória, a produção volta para um nível superior ao do fundo do poço. Mas continua mais baixa do que a que tínhamos no pico por causa dessa queda da demanda. Alguém que tivesse vindo de Marte e visse o resultado da indústria automobilística em janeiro no Brasil pensaria: "Que maravilha!" O que aconteceu é que a indústria havia colocado o nível de produção bem abaixo do nível de demanda para rapidamente desovar o estoque. Acabou o estoque, a produção volta para um nível que está trinta, trinta e poucos por cento abaixo do pico prévio. Ou seja, não há nada de excepcional na recuperação "magnífica". Os dados de produção industrial de janeiro ainda não saíram, mas é capaz de haver uma alta de 10% sobre dezembro. Mas isso será um caminhão abaixo do pico prévio (quatro ou cinco meses atrás). Ou seja, é apenas sair do fundo do poço.

Esse padrão de movimento da área automotiva será seguido por outros setores?

Os setores mais ligados ao setor automotivo terão um movimento parecido. Mas pegue construção civil, por exemplo. Não manteve um nível de produção acima da demanda como a indústria automobilística manteve. Há várias indústrias que não são sujeitas a esse ciclo de estoque.

Como fica a produção industrial para o ano, nas suas projeções?

Em vez de olhar a evolução de um mês para o outro, olhe para a crise internacional, como chega ao Brasil, como mexe com as exportações. Quando se olha para tudo isso, vê-se a discrepância clara entre as projeções de crescimento do mercado e do governo. Não há unanimidade em nada, mas o consenso do mercado está muito distante - e pessimista - da previsão do governo. No mercado, fala-se em crescimento entre 1,5% e 2,5%. O governo fala em 4%. Tudo bem que haja uma componente política, mas a visão deles é muito diferente.

O sr. projeta 1,5%?

Isso. A indústria fica um pouco acima. Um ponto e meio ou dois acima. Há uma variação de incerteza no resto.

É preciso cautela, então?

Me lembro que, na crise da Rússia, o índice da bolsa local despencou para uma ordem de grandeza como se fosse de 2.000 para 10. De repente, em um único dia, foi para 20. Ou seja, avançou 100%. Alguém, então, comentou que a crise russa havia acabado. Precisamos tomar cuidado com esse tipo de raciocínio. O dado de alta frequência, quando se está nesse ciclo de estoques, precisa ser olhado com muita cautela. É preciso olhar a tendência. Sobretudo quando se sabe que o ciclo de estoques é grande.

A produção de veículo disparou em janeiro e alguns economistas chamam a atenção para o montante de dinheiro que o aumento do salário mínimo jogará na economia. Afinal, como está o consumo?

Em primeiro lugar, consumo não é automóvel. Não há dado de venda real do comércio em dezembro ainda. Em novembro, houve uma queda, fora automóveis. O número de horas trabalhadas por trabalhador caiu uma montanha. Isso é indicador antecedente de queda de emprego. Os bancos estão cautelosos na concessão de crédito. Tudo isso bate no consumo. Cairá menos a venda de alimentos e vestuários que a de automóveis. Mas o movimento é de queda. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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