Nunca o consumidor parcelou tantas compras no cartão de crédito durante o primeiro semestre de um ano como em 2008. As compras a prazo nesse período cresceram 10 pontos porcentuais nos últimos cinco anos, atingindo, em 2008, pela primeira vez, mais da metade (50,1%) do total de transações efetuadas pelas empresas de cartões no período.

"Foi o maior porcentual registrado em todo o histórico da pesquisa", afirma Fernando Chacon, diretor de marketing do Banco Itaú.

Para Chacon, as principais justificativas para a expansão são o aumento do número de lojas que oferecem a alternativa de parcelamento sem juros no cartão, a ampliação dos prazos de pagamento e a maior segurança nessas operações.

"Por conta disso, o cartão de crédito tomou o espaço dos cheques pré-datados como principal forma de compra a prazo", analisa Chacon. Em 1997, quando as lojas começaram a anunciar o parcelamento sem juros no cartão, os cheques compensados somavam 4 bilhões no ano, e as transações de cartão de crédito não passavam de 200 milhões. Hoje, a proporção se inverteu: são 1,4 bilhão de cheques e 2,9 bilhões de transações.

A consultora Bruna Greco de Souza, de 30 anos, é uma das consumidoras que trocaram o cheque pelo cartão. "Nunca mais passei um pré-datado", afirma. "Prefiro o cartão porque com ele posso ter um relatório mensal das despesas que tive e consigo parcelar em mais vezes."

Além das vantagens que o cartão de crédito oferece, há outras razões que explicam a opção dos consumidores pelo parcelamento das compras. Para o economista Cláudio Gonçalves, dirigente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), as pessoas só partem para o consumo quando se sentem confiantes em relação aos rumos da economia e à estabilidade dos seus empregos. "O parcelamento indica otimismo por parte do consumidor", avalia Gonçalves.

Há também casos em que contrair prestações é a única maneira de adquirir um produto mais caro, lembra o economista. "A opção de pagamento a prazo é uma forma de fazer o produto caber no bolso. Isso possibilita compras que não seriam viáveis de outra maneira."

Já Douglas Renato Pinheiro, economista e coordenador do curso de Administração das Faculdades Rio Branco, avalia que o aumento do número de compras a prazo não é um sinal positivo. "Em tempos de alta da inflação, o parcelamento muitas vezes não é uma opção, mas sim uma necessidade", declara. "Quando a renda do trabalhador é consumida pela alta de preços de produtos básicos (como os alimentos), sobra pouco dinheiro para outras despesas. Daí, o cidadão se vê forçado a assumir prestações para dar conta de comprar o que precisa."

Segundo Pinheiro, a alta da inflação e o aumento da taxa de juros podem transformar endividamento em inadimplência. Dados da Federação do Comércio do Estado de São Paulo mostram que 53% dos consumidores já estavam endividados em julho.

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