Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Para Unctad, poupança interna influi pouco na taxa de investimento

BRASÍLIA - Em lugar de medidas para atrair investimentos e empréstimos estrangeiros, os governos dos países em desenvolvimento devem estimular o crédito do sistema bancário e fazer com que as empresas reinvistam os lucros e dividendos obtidos no próprio país, defende a Unctad, a agência das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento. O relatório anual da Unctad alerta para o risco de contágio, nos países em desenvolvimento, da crise financeira dos países desenvolvidos e desaconselha a adoção de políticas monetárias apertadas nos países ricos, que vêm sofrendo desaceleração econômica.

Valor Online |

Conhecida como a mais heterodoxa das instituições multilaterais, a Unctad não condena, porém, as altas taxas de juros adotadas em países como Brasil, Chile, Colômbia, Índia, México e Filipinas. Pelo contrário, diz que esses países estão entre os que sofrem pressão inflacionária crescente devido à combinação de aumento de salários e altas nos preços das commodities (mercadorias com preços fixados em mercados internacionais). O medo de surto inflacionário pode ser justificado em alguns desses países , devido a efeitos secundários provocados pelos aumentos salariais, diz a Unctad.

O aumento no preço das commodities levanta o temor da espiral preços-salários, em que aumentos nos salários levam a reajustes nos preços. Esse é um risco ainda baixo ou moderado, mas crescente em países como Argentina, Equador, Austrália e Dinamarca, aponta a Unctad. Na maioria dos países, porém, não são significativos os aumentos salariais. Para a Unctad, o risco de indesejada recessão econômica devido a respostas ortodoxas é bem maior que o de uma disparada na inflação provocada por políticas mais heterodoxas.

O Brasil estaria entre os países com baixo risco de espiral inflacionária, o que tornaria indesejáveis altas muito pronunciadas nos juros, avalia o representante da Comissão Econômica para América Latina (Cepal), Renato Baumann, que apresentou ontem o relatório da Unctad, em Brasília.

Nas frágeis condições atuais da economia global, medidas para apertar a política monetária podem exacerbar a desaceleração econômica , disse o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi na apresentação do estudo, em que ele recomenda muita cautela na aplicação de medida potencialmente contracionista, em especial nos países desenvolvidos.

O crescimento econômico mundial, em 2008, deve ser de 3%, um ponto percentual abaixo do verificado no ano passado, prevêem os economistas da Unctad, que calculam em apenas 1,5% o crescimento nos países desenvolvidos. O Brasil deverá crescer 4,8% neste ano, menos que os 5,3% previstos para a América do Sul ou os 6,4% projetados para todas as economias em desenvolvimento, mas próximo à média dos países da América Latina e Caribe, que será de 4,6%.

O relatório da agência da ONU chama a atenção para um fenômeno que, na avaliação de seus economistas, contraria as políticas convencionais de atração de investimentos para os emergentes, normalmente baseadas em medidas para atrair capital externo e aumentar a poupança interna.

Os economistas notam que os aumentos de preços de commodities, as desvalorizações de moedas em relação ao dólar e o forte desempenho exportador, com aumento de competitividade, fizeram com que, no período entre 2002 a 2006, 42 dos 113 países em desenvolvimento se tornassem exportadores líquidos de capital , ou seja, enviaram mais dinheiro ao exterior, inclusive sob a forma de investimentos, do que receberam. Em 60 desses países, os balanços de transações correntes com o exterior também melhoraram significativamente, se comparados com o período entre 1992 e 1996.

Além de contrariar a expectativa de que a abertura dos anos 90 levaria a um aumento no fluxo de capital externo para essas economias, os resultados nas contas externas do mundo em desenvolvimento mostrou que os países exportadores de capital tiveram taxas de investimento e crescimento maiores que a média. Isso, na avaliação a Unctad, desmoraliza a tese de que é a formação de poupança interna ou a atração da poupança externa são o principal motor do investimento. O estudo mostra que, hoje, a principal fonte de recursos para investimentos das empresas nos países emergentes são as receitas próprias, reinvestidas pelas companhias. O mercado de capitais ainda representa uma fonte muito pequena de captação de recursos.

Os resultados recentes da economia mundial mostram que a expansão da poupança nacional é mais um resultado que uma pré-condição dos investimentos e da melhoria da competitividade , disse Renato Baumann. O relatório, seguindo essa visão alternativa , sugere incentivos fiscais e atuação dos bancos públicos na promoção de investimentos. A Unctad compara a experiência do BNDES no Brasil e a da China para defender um modelo misto, em que bancos oficiais atuem em parceria com bancos privados para evitar ineficiência nos empréstimos.

Envolver outros bancos nos empréstimos garante uma segunda opinião sobre a viabilidade do investimento, reduzindo assim o risco de financiar projetos ruins , diz o texto, que elogia a atuação do BNDES e lembra os problemas com as carteiras de empréstimos dos bancos estatais chineses. Para a Unctad, o governo deve interferir no mercado também para canalizar os empréstimos, priorizando financiamentos para aumento de produção e evitando crescimento indesejável do crédito ao consumo, de potencial inflacionário.

(Sergio Leo | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG