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Para pagar dívida de R$ 23 trilhões, uma doação de R$ 554

Crescem nos EUA as contribuições voluntárias para diminuir o rombo nas contas do governo, mas impacto sobre os débitos é mínimo

The New York Times |

Em um cubículo no quinto andar de um prédio federal de Parkersburg, no Estado norte-americano de West Virginia, há uma cesta de arame com o nome “Presentes”. Quase todos os dias chega um envelope, depois devidamente aberto por um funcionário do Departamento do Tesouro. Dentro, geralmente há um cheque, muitas vezes acompanhado por uma carta explicando por que o remetente quer fazer sua parte para ajudar a reduzir a dívida federal dos Estados Unidos. Uma parte muito pequena, para ser claro.

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Teri Gisi, à esquerda na segunda fileira, e seus alunos da sexta-série no Alabama: doação de US$ 324 com dinheiro da venda de biscoitos

No ano passado, a Autarquia da Dívida Pública registrou US$ 3,1 milhões (R$ 5,3 milhões, em valores atuais) em doações, mais do que tem sido habitual desde que o governo começou a aceitar ofertas do gênero, em 1961. Nesse ritmo, seriam necessários milhões de anos para se quitar os US$ 13,4 trilhões (R$ 23 trilhões) em débitos que o país tem com credores nacionais e estrangeiros.

As preocupações com a economia, especialmente com impostos e despesas, têm dominado os debates nas eleições para o Congresso e os governos estaduais, mas é difícil encontrar autoridades que contribuíram voluntariamente para melhorar o equilíbrio financeiro da nação.

O secretário do Tesouro, Timothy F. Geithner, não sacou o talão de cheques, e os conservadores fiscais, para quem a dívida recorde é um grito de guerra, quase não cogitaram a ideia de uma doação.
Desde o início do programa, os americanos doaram cerca de US$ 80 milhões (R$ 137 milhões). Entre os doadores mais recentes estão uma turma de sexta série do Alabama, que levantou US$ 324,50 (R$ 554) com a venda de biscoitos, um homem de Maryland, que soube do programa em uma aula noturna de contabilidade, e Margaret E. Taylor, de 98 anos, de Findlay, Ohio, que faleceu em 2006 e legou US$ 1,1 milhão para a causa.

Sem propaganda

“Ouço reações diversas”, diz John W. Krupansky, de 56 anos, desenvolvedor de software no centro de Manhattan que começou a ler sobre a economia durante a crise das empresas pontocom, há uma década, e tem escrito em seu blog sobre suas doações – nove até agora, cada uma de US$ 25. “Algumas pessoas ficam irritadas. Elas pensam que a coisa certa a fazer é reclamar da dívida, e não fazer algo concreto sobre isso. Outras pessoas se divertem com a ideia de alguém perder seu tempo para fazer uma coisa dessas.” Neste ano fiscal, até julho, a autarquia registrou US$ 2,7 milhões em doações, cerca de 9% menos que no mesmo período do ano passado.

Os doadores podem enviar um cheque, uma ordem de pagamento ou enviar o dinheiro de maneira online, usando cartão de crédito ou débito. O governo não faz propaganda do programa, e os funcionários evitam chamar a atenção para isso. O programa sai das sombras, segundo eles, apenas quando os jornalistas perguntam sobre ele.

Van Zeck, diretor da autarquia, supervisiona as vendas de bônus e títulos do Tesouro e a contabilidade da dívida até o último centavo e garante que os débitos não ultrapassam o limite legal, que o Congresso elevou em fevereiro para US$ 14,3 trilhões.

Perguntado sobre a razão de o programa ser pouco conhecido, ele disse que pedir doações pode “parecer simples e benigno, mas pode dar uma ideia errada aos contribuintes". “Isso pode sugerir que as pessoas façam mais para ajudar financeiramente o governo do que eles já fazem. Não é o tipo da pergunta que eu gostaria de responder”, disse ele.

Criador da lei inventou o "In God We Trust"

O programa foi ideia do deputado democrata Charles E. Bennett, da Flórida, que serviu 44 anos na Câmara. Bennett, que morreu em 2003, aos 92 anos, também escreveu a lei que exige que o dólar tenha o lema “In God We Trust” (“Em Deus nós Confiamos”). Ele era conhecido pelo civismo. Bennett, veterano da Segunda Guerra Mundial, devolveu ao governo seus cheques de ferido de guerra e seguro social. Quando se aposentou, ele doou a maior parte dos fundos de sua campanha para a caridade e o Tesouro.

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John Krupansky, desenvolvedor de software que já doou US$ 225 para reduzir a dívida do governo: "as pessoas se divertem com a ideia de alguém perder seu tempo com isso"
A lei de Bennett ajudou tornar mais clara a autoridade do governo de aceitar presentes voltados à redução da dívida. Enquanto a Casa Branca acreditava que “essa autoridade quase certamente já existe," a legislação estava “inclinada a incentivar essas doações” e criar uma forma de aceitá-las, de acordo com um memorando de 1961, agora disponível na Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, em Boston.

Mas, embora o memorando confirme que as doações são consideradas para a redução da dívida, o montante recebido não tem qualquer impacto real sobre os gastos e empréstimos do governo. “Não parece haver qualquer intenção de colocar o controle do nível real da dívida em mãos privadas, embora aqueles que fazem doações possam ter a impressão de que estão exercendo esse controle”, escreveu Phillip S. Hughes, diretor-assistente de orçamento, como conselho a Kennedy, que assinaria o projeto.

"Programa capenga"

Para algumas pessoas, isso deixa o programa capenga. “É apenas um bom dinheiro após o mau”, disse o deputado Jeff Flake, que, com o colega republicano John McCain, senador por Arizona, criou a lei que permite que os contribuintes destinem até 10% de seu imposto de renda para reduzir a dívida e exige que o Congresso atinja o mesmo nível em cortes de gastos.

Flake disse que tinha apenas uma “vaga lembrança” do programa de doações, mas que não o apoia. “Eu não acho que os contribuintes tenham que ficar ainda mais pendurados”, disse ele. “Nós já pagamos o suficiente.”

Mas há contribuintes que argumentam que o sacrifício mútuo é justamente o que se precisa para reavivar a economia. Teri Gisi, professora da escola de ensino básico Dalraida, em Montgomery, Alabama, que coordenou a venda de biscoitos da turma da sexta série, realizada no ano passado depois de os alunos aprenderem sobre a dívida em sala de aula, disse que a recessão ficou em suas mentes.

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Homens da comunidade Amish: membros do grupo doaram dinheiro da restituição do imposto de renda porque sua crença religiosa impede receber dinheiro do governo

“Alguns de nossos alunos tiveram que se mudar para morar com os avós porque perderam suas casas”, disse ela. “Alguns deles não tinham sequer sapatos novos para o início das aulas.”

Apesar das dificuldades, os alunos fizeram da redução da dívida a sua causa. “Três centenas de dólares para eles é uma grande quantia”, disse a professora. Mesmo quando um professor de matemática explicou o quão grande era a dívida – “mostrou-lhes todos os zeros”, ela disse – “eles não desanimaram.”

Doação de viúva

Os funcionários do Tesouro informaram que são proibidos de identificar os doadores. Mas em Parkersburg, alguns funcionários compartilharam histórias. Uma viúva passou o espólio de seu falecido marido, que tinha feito doações regulares para manifestar patriotismo. Cidadãos naturalizados, gratos pelas oportunidades oferecidas a imigrantes, contribuíram. Um homem enviou uma coleção de moedas raras, que foram leiloadas por muito mais do que seu valor de face.

Muitos contribuintes simplesmente assinaram os cheques de sua resituição de imposto de renda e enviaram ao governo, incluindo membros das comunidades Amish e menonita, que explicaram que suas crenças religiosas não lhes permitem aceitar ajuda do governo.

A autarquia tenta fazer com que os doadores se sintam valorizados. Quem faz uma contribuição recebe de volta uma carta de agradecimento de Sherlyn West, gerente em Parkersburg. “Sua contribuição ajudará a garantir que as gerações futuras não carreguem o peso de uma dívida enorme”, diz a correspondência.

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