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Num momento de impasse entre países emergentes e desenvolvidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliou hoje que só haverá conclusão satisfatória da Rodada Doha se os países ricos aumentarem os investimentos na produção de alimentos na América Latina e na África e eliminarem os subsídios agrícolas. Em discurso na reunião fechada do sétimo encontro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, Lula, segundo relato de diplomatas presentes, disse que é preciso um entendimento que leve em conta as populações que sofrem no estômago com as práticas desleais do comércio.

"Uma solução estrutural para a questão exige ações em diferentes frentes", disse o presidente. "De um lado, direcionando recursos para a produção de alimentos nos países pobres e, de outro, eliminando práticas desleais que caracterizam o comércio agrícola mundial."

Ele propôs a dirigentes de outros sete países que falam português a entrarem na briga pelo fim dos subsídios agrícolas. "Após anos de dependência de alimentos importados e de lutar contra o protecionismo praticado pelas nações desenvolvidas, muitos países abandonaram suas agriculturas", disse Lula, ainda segundo diplomatas que acompanham o encontro dos chefes de governo dos oito países de língua portuguesa, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Além do Brasil e Portugal, integram a conferência os seguintes países: Angola, Timor Leste, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

O presidente brasileiro falou também sobre o aumento do preço do petróleo e conseqüentemente dos fertilizantes e dos fretes e da melhoria da renda nos países pobres como causas da crise de desabastecimento. Lula voltou a criticar analistas que associam a falta de alimentos à política de expansão do etanol. "Vejo com espanto as tentativas de vincular o desenvolvimento dos biocombustíveis à escassez de alimentos ou ao aumento de seus preços", afirmou. "No Brasil, a produção de etanol à base de cana-de-açúcar não reduz nem invade a área de produção de alimentos", completou. "É preciso deixar claro que os biocombustíveis não ameaçam a segurança alimentar."

No discurso, o presidente avaliou que a crise atual resulta de uma combinação de fatores e não admite "explicações simples". "Há mais pessoas comendo nos países em desenvolvimento, o que é positivo, mas há também a quebra de colheitas", disse. "Essa conjunção de fatores pegou muitos países desprevenidos e despreparados", completou. "É preciso um acordo que deixe de tratar o comércio agrícola como uma exceção às regras."