No meio de mais uma etapa difícil de negociações da rodada Doha, na Organização Mundial de Comércio (OMC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva endureceu ontem o discurso contra os países desenvolvidos, apesar de ainda se dizer otimista com a possibilidade de um acerto. Em uma breve entrevista no Palácio do Itamaraty, o presidente disse que não tem acordo sem redução dos subsídios agrícolas impostos por Estados Unidos e Europa.

O presidente acusou europeus e americanos de não estarem acostumados a negociar e tentar impor suas idéias. "Eu acho que tanto americanos quanto europeus estão habituados a um tempo em que não havia negociação. Eles impunham aquilo que queriam e os outros eram obrigados a aceitar", disse. "Hoje, é preciso levar em conta os países emergentes, a existência de uma maior consciência de soberania alimentar no mundo inteiro."

"Se não houver uma efetiva diminuição dos subsídios dos EUA e se não houver uma efetiva flexibilização para o mercado agrícola europeu não tem acordo e cada um que arque com sua responsabilidade. Cada um vai colher o que plantou", afirmou. Lula aproveitou para elogiar o seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a quem chamou de "extraordinário negociador."

Recentemente, o ministro foi atacado por outros negociadores em Genebra por ter comparado as táticas de negociação dos países ricos com a propaganda nazista instaurada por Joseph Goebbels, dizendo que "uma mentira contada muitas vezes se torna uma verdade."

O atual encontro de ministros em Genebra, na sede da OMC, é mais uma etapa das negociações que se arrastam desde novembro de 2001. Os países desenvolvidos querem que os mais pobres abram seus mercados para a entrada de mais produtos manufaturados. Em troca, o G20 - formado pelo Brasil e outros 19 emergentes - querem a redução significativa dos subsídios americanos e europeus à agricultura e a facilidade de acesso aos mercados.

Apesar das críticas, Lula se disse otimista. Afirmou que o Brasil está disposto a ceder, desde que haja contrapartidas. "Eu tenho dito que sou o mais otimista dos dirigentes do mundo na possibilidade de se fazer um acordo na Rodada de Doha. Temos que ajudar a desenvolver os países mais pobres."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.