A perspectiva de a Rodada Doha chegar a um acordo final levou o Itamaraty a ensaiar, previamente, um discurso para desmontar as críticas de que as concessões na área industrial foram gordas demais para compensar ganhos tão pífios na área agrícola. Na noite de hoje, enquanto os ministros de cerca de 30 dos 153 países da Organização Mundial do Comércio (OMC) tentavam chegar a um acerto, negociadores brasileiros defendiam que os resultados já alcançados são satisfatórios, uma vez que esta é apenas a segunda rodada multilateral a trazer a agricultura entre os seus temas centrais.

"Dizer que o preço do acordo foi alto demais é uma leitura de leigo, uma leitura errada de quem não tem interesse afim com a abertura comercial", afirmou um negociador. "A referência para nós, nessa Rodada, não é o que pagamos em termos de abertura industrial. Mas o fato de termos conseguido enormes cotas para os nossos produtores rurais."

O enunciado do negociador dá uma idéia clara do quanto o Itamaraty está propenso a esquecer as ambições do governo brasileiro e do setor do agronegócio nos últimos sete anos e justificar um acordo que não deverá trazer, efetivamente, ganhos na área agrícola. Essa dimensão tem sido compreendida pela Argentina, cujo governo resiste a aderir ao compromisso desenhado. Até o dia de hoje, a negociação caminhava para um compromisso dos países em desenvolvimento - ou seja, para o Brasil e seus sócios do Mercosul - de corte de 54% nas tarifas de importação de bens industriais, com margem de proteção para 14% das linhas tarifárias.

Na área agrícola, os Estados Unidos haviam prometido o teto de US$ 14,5 bilhões ao ano para os subsídios concedidos a seus agricultores, quando seus desembolsos nos últimos 12 meses ficaram em torno de US$ 7,5 bilhões. A União Européia aceitou o corte de 54% nas suas tarifas para produtos agrícolas, que chegam a 200%, mas com exceção para 4% das linhas tarifárias, que continuariam sob proteção. Nessa faixa devem ser abrigados todos os produtos de interesse do Brasil e da Argentina, alguns dos quais seriam apenas beneficiados pelas "enormes cotas".

Em princípio, os europeus concordariam em aplicar tarifas de importação menores para as cotas anuais de 300 mil toneladas de carne bovina, de outras 300 mil toneladas de carne de frango e de 650 mil toneladas de açúcar - nenhuma exclusiva para o Brasil. Ainda está em negociação uma cota de 1,4 milhão de litros de etanol, praticamente o mesmo volume que estava na negociação do acordo de livre comércio União Européia-Mercosul, suspensa há mais de dois anos.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.