GENEBRA - Para o Brasil, os países ricos provocaram uma crise, cuja conta vai acabar sendo paga tambem pelos países em desenvolvimento, e a melhor maneira de atenuar a fatura e dar um sinal positivo aos mercados é concluir rapidamente a Rodada Doha. A constatação foi feita ontem pelo embaixador brasileiro junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo.

Ele abriu fogo no tiroteio dos emergentes diante das consequências da crise, como falta de liquidez e custos de financiamento mais elevados. A reunião foi especialmente importante ontem, às vésperas da reunião de cúpula do G-20, em Washington, que examinará como reformar o sistema financeiro internacional.

Atualmente, os " sherpas " , como são chamados os negociadores pessoais dos presidentes e chefes de governo, preparam os comunicados para a reunião de sábado, nos quais a ênfase, no comércio, é para que os países não aumentem tarifas na situação atual. Só que, para o Brasil, ficar nisso significa que a fatura vai ser mais elevada para os emergentes. Considera mais importante que os países ricos se comprometam a não elevar os bilionários subsídios, já que a ajuda a seus agricultores é vinculada aos preços das commodities - quanto menor o preço, maior o subsídio.

Em entrevista ao Valor, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, exemplificou que o nível de subsídio potencial dos EUA para o algodão passou de zero a US$ 2,5 bilhões desde julho, diante da baixa dos preços. O temor de alta de subvenções por parte dos desenvolvidos é maior ainda, porque países exportadores agrícolas estão tendo dificuldade crescente hoje para financiar a safra do ano que vem, diante da falta de crédito.

" Os países em desenvolvimento e menos desenvolvidos são os que vão sofrer mais com o fechamento de grandes mercados e da depressão nos preços das commodities, devido à fraca demanda e, sobretudo, à alta de subsídios que distorcem o comércio " , afirmou Azevedo. Ele destacou que o Brasil continua convencido que a conclusão da Rodada Doha ainda este ano é a melhor contribuição que a OMC pode dar para restaurar a confiança dos mercados.

Azevedo chamou a atenção para os riscos da instabilidade dos mercados financeiros e disponibilidade de credito à exportação, a necessidade de rever o Acordo de Basiléia 2 e o risco de retorno da crise do endividamento de países importadores em desenvolvimento. Brasil e México, sobretudo, vão pressionar, durante a reunião do G-20, para que chefes de Estado e governo divulguem comunicado forte pela conclusão do esboço de acordo em Doha até o fim do ano.

O embaixador da Índia, Ujal Singh Bhatia, disse que as exportações tinham crescido mais de 20% na primeira metade da crise financeira, mas agora desaceleraram, diante da menor demanda nos EUA, União Européia e China, afetando setores de mão-de-obra intensiva, como têxteis, brinquedos, produtos marítimos etc.

O embaixador da China, Sun Zhenyu, afirmou que o crescimento das exportações chinesas para os EUA caíram 4,6%, e para a UE, 7%. Segundo ele, o pacote de estímulo econômico de US$ 600 bilhões, anunciado esta semana, foi provavelmente a última contribuição chinesa para superar a crise.

Os três grandes emergentes atacaram duramente os estragos provocados pelos mercados financeiros, cobrando nova governança global. Essa também será a tônica da participação do Brasil na reunião do G-20, junto com a retomada da Rodada, disse ontem o porta-voz da presidência da República, em Brasília, Marcelo Baumbach. " O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deseja que os líderes das 20 maiores economias do mundo reiniciem as negociações sobre o acordo de comércio global. "
(Assis Moreira | Valor Econômico)

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