Diariamente, as companhias de seguros vendem apólices a compradores de imóveis residenciais para cobrir o custo dos prejuízos em caso de incêndio. Será que essas companhias concordariam em pagar integralmente a indenização ao detentor de uma apólice, mesmo que não tivesse ocorrido um incêndio? É esta a indagação que está sendo feita a respeito da ajuda do governo federal à seguradora American International Group (AIG), que transferiu US$ 49,5 bilhões em dinheiro dos contribuintes a instituições financeiras, como Deutsche Bank, Goldman Sachs e Merrill Lynch.

Domingo, a companhia revelou ter feito esses pagamentos, que correspondem a quase 30% do total de US$ 170 bilhões em dinheiro dos contribuintes dados à AIG desde seu quase colapso, em setembro.

A companhia resistiu durante meses a identificar os beneficiários, alegando acordos de confidencialidade. Mas, em vez de aplacar a controvérsia, a revelação das quantias pagas aos clientes da AIG suscitou ainda mais questionamentos e inquietação em torno da operação de salvamento da seguradora, determinada pelo Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos Estados Unidos) e pelo Tesouro americano.

Os críticos argumentam que a decisão do governo de pagar integralmente todos os compradores de seguro de crédito da AIG favoreceu o uso impróprio do dinheiro público. Além disso, afirmam, outras opções que não foram levadas em consideração pelo governo poderiam ter permitido que os contribuintes se beneficiassem de ganhos no futuro ou ao menos teriam conseguido limitar melhor os prejuízos em potencial.

As críticas foram provocadas pela medida do governo em relação ao seguro do crédito que a AIG havia subscrito e vendido a grandes e sofisticados investidores, na maior parte instituições financeiras. Os bancos que fizeram negócios com a AIG adquiriram seguros de crédito para proteger-se contra a possível falta de pagamento dos títulos da dívida que eles detinham ou haviam subscrito.

Mas, quando a classificação de crédito da AIG foi reduzida, no ano passado, a companhia foi obrigada a criar um colateral para esses contratos. A necessidade de entregar imediatamente um dinheiro que não tinha criou a espiral da crise, que a levou à beira do precipício.

O que preocupa algumas pessoas é o fato de o governo ter pago integralmente as contrapartes, muito embora os títulos subjacentes não tivessem apresentado calotes em geral. "Foi impróprio dar dinheiro à AIG para que ela o distribuísse igualmente entre suas contrapartes", disse Robert Arbanitis, diretor-executivo da Risk Finance Advisors de Westport, especialista em seguros. "Se decidirmos que outro banco estará em dificuldades por causa do colapso da AIG, deveremos decidir explicitamente que o banco deve ser amparado. Não devemos simplesmente dar a cada um 100 centavos por dólar."
Quando o governo adquiriu os títulos para cancelar o seguro, o contribuinte tornou-se proprietário desses pools de emissões de dívidas. Como o governo optou por pagar pelo valor par, ou 100% do valor nominal, o contribuinte terá risco de prejuízo se os títulos perderem o valor, mas praticamente sem possibilidade de ganhos.

Mesmo que nenhum dos títulos nos pools venha a ter calote, o contribuinte provavelmente não receberá mais do que o par - o que o governo pagou - quando os papéis vencerem. Se o governo tivesse negociado preço inferior, por exemplo, 75 centavos por dólar, o contribuinte teria talvez a possibilidade de ganhos ao longo do processo.

Os três principais beneficiários dos recursos do governo relacionados ao seguro de crédito contratado pela AIG são o banco francês Société Générale, com US$ 11 bilhões; o Goldman Sachs, com US$ 8,1 bilhões; e o Deutsche Bank, com US$ 5,4 bilhões. A revelação dos pagamentos feitos pela AIG às suas contrapartes não forneceu nenhum detalhe de como o governo chegou aos preços que pagou pelos títulos. Se pagou acima do que devia pagar, o contribuinte correrá um risco maior de perdas, mesmo porque é possível que os beneficiários tenham recebido mais do que tinham direito a receber.

Outro aspecto preocupante para alguns é que muitas das contrapartes são instituições estrangeiras; na realidade, das 22 instituições que receberam o colateral, 16 são de fora dos EUA. "Acho impossível entender o motivo pelo qual os contribuintes estão salvando bancos estrangeiros", comentou Thomas H. Patrick, fundador da New Vernon Capital e ex-executivo da Merrill Lynch.

A decisão de proteger as instituições estrangeiras dos prejuízos em um eventual colapso da AIG reflete talvez até que ponto os mercados financeiros globais hoje estão interligados.

Muito embora a AIG tenha finalmente revelado os nomes das instituições que receberam soma tão grande de recursos do governo, que se julgava fossem destinados à AIG, a ideia de que levou seis meses para fazê-lo ainda irrita alguns analistas.

"O sistema foi posto em risco quando foi pedido ao povo americano, com a condição do sigilo, que salvasse uma companhia, quando, na realidade, o dinheiro serviria para salvar alguma outra", disse Sylvain R. Raynes, da R&R Consulting, empresa que ajuda os investidores a avaliar seus riscos da dívida. "O programa da operação de salvamento não foi entregue às pessoas porque, se fosse, o acordo não teria sido concluído."

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