Muitos economistas não acreditam que o pacote de estabilização econômica apresentado pelo governo americano possa salvar os Estados Unidos da recessão. Apesar de o presidente do Fed, Ben Bernanke, ter afirmado que os EUA enfrentarão graves ameaças se o pacote não for aprovado pelo Congresso, há dúvidas sobre a eficácia do programa.

"Mesmo se o plano do Tesouro for implementado corretamente, nós não vamos evitar uma recessão", disse o economista Nouriel Roubini, conhecido pessimista, em entrevista coletiva. "Com o plano, teremos recessão de 18 meses a dois anos, com crédito paralisado e vários bancos médios e pequenos quebrando; sem nenhum plano, teríamos estagnação de 10 anos semelhante à vivida pelo Japão depois do estouro da bolha imobiliária", diz Roubini, professor da New York University.

Carmen Reinhart, professora de Economia da Universidade de Maryland, diz que "não fazer nada" não é uma opção. "O sistema financeiro precisa muito de uma recapitalização - se não houver um programa sistêmico, teremos mais instituições quebrando, os valores de ações e ativos imobiliários caindo e redução da riqueza das famílias, com conseqüente queda no consumo e investimento -, enquanto os bancos acumulam liquidez porque estão relutantes em fazer empréstimos."

Mas, por mais que o plano seja necessário, isso não significa que seja uma panacéia - e outros bancos vão inevitavelmente quebrar pelo caminho. "Teremos surpresas desagradáveis, com bancos cheios de ativos valendo muito menos do que esperávamos, e será necessário intervir em mais instituições ou promover outras fusões." A economista também defende a inclusão de alguma restrição à remuneração dos executivos de bancos no pacote.

Kenneth Rogoff, professor de Economia da Universidade Harvard, aponta para a dificuldade de execução do pacote. O plano do secretário Henry Paulson permite ao Tesouro americano usar até US$ 700 bilhões para comprar dos bancos títulos podres e assim descongelar o mercado de crédito. A maior armadilha será determinar o preço que o Tesouro vai pagar pelos ativos podres. Se pagar muito pouco - digamos 20% do valor de face, como os títulos podres vendidos pela Merrill Lynch em julho -, o governo acaba empurrando ainda mais os bancos para o buraco, porque os força a marcar essas grandes perdas em seus balanços. Se pagar quase o valor de face, muito mais do que valeriam no mercado, será um grande impacto sobre os contribuintes que estão pagando pelo resgate.

Bernanke é contra a compra desses ativos a preços de "saldão". "O que mais me preocupa é a noção de que o Tesouro poderá pagar muito mais pelos títulos do que valem hoje no mercado. Um pequeno prêmio, tudo bem, mas um grande prêmio é muito difícil de justifica", disse Rogoff ao Estado. Ele acha que uma consolidação do sistema bancário é inevitável. "O sistema bancário ainda está inchado e precisa encolher."

Para Allan Meltzer, professor da Universidade Carnegie-Mellon, que foi assessor do presidente Ronald Reagan, sem um plano o Fed iria manter sua janela de redesconto aberta e fazer empréstimos a todos os bancos exigindo garantias. "Os problemas atuais não vão passar até o mercado acreditar que os preços dos imóveis vão parar de cair - hipotecas não podem ser avaliadas de forma adequada até que o mercado consiga avaliar imóveis", disse Meltzer.

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