A bolsas despencaram de novo e o mercado financeiro tremeu após um dia de euforia. Na semana passada, menos 11%, segunda-feira, mais 11%, ontem menos 11%.

... Mas como? O que está acontecendo? E aquele maciço socorro financeiro nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil não adiantou nada?, pergunta o leitor entre confuso e perplexo. Adiantou, sim, mas, como Ben Bernanke lembrou ontem, "o crédito (para financiar a produção e o consumo) leva algum tempo para descongelar e, mesmo que ele se estabilize, uma recuperação ampla da economia não ocorrerá logo".

Afinal, o que aconteceu e ainda pode acontecer? A resposta terá de ser dividida em partes. Primeiro, temos de ver o cenário financeiro, bolsas, economia e, em seguida, o cenário interno. Há importantes diferenças a serem levadas em conta.

A CRISE LÁ FORA

Na semana passada, principalmente na sexta- feira, o quadro era assustador. Bolsas despencando, grandes bancos acumulando perdas, crédito estagnado, dívidas aumentando. Talvez tenha sido a pior semana desde 1930. A coluna rejeita usar a palavra pânico, porque as vendas e a fuga de capitais se procederam de forma ordenada, sem nenhuma instituição financeira quebrando. Um número maior de investidores vendendo, mas outros aproveitando preços baixos e comprando.

Nesse momento, os países que integram o G-7 reuniram-se em Washington, mas só chegaram a um acordo de princípios: não vamos deixar ninguém quebrar, vamos garantir a todos, até as contas individuais. A declaração final era vaga, não se fixavam metas. O mercado passou o fim de semana desapontado. A coluna insistia no domingo que a crise se agravara nas últimas semanas e sem uma garantia firme de que os governos iriam capitalizar os bancos e garantir as contas, não se podia prever o que aconteceria.

EUROPA SALVOU

No domingo, os chefes de Estado dos 27 países da União Européia surpreenderam anunciando que injetariam mais de US$ 2 trilhões no sistema, não só para assegurar a liquidez dos bancos, mas também garantir as contas individuais. Dessa vez, em vez de provocar guerras, a Europa salvou o sistema na undécima hora. Resultado: na segunda-feira as bolsas subiram até mais de 11%. O caos tinha sido adiado, mas ainda estava perto. Por quê? A explicão dos analistas pode ser assim resumida: 1) o mercado (não só as bolsas) deu um grande salto porque as ações e as aplicações financeiras estavam muito desvalorizadas em decorrência da onda de vendas; 2) os investidores aproveitaram a grande alta para vender, ganhando ou apenas recuperando perdas; 3) esperava-se medidas mais fortes e de efeito imediato dos EUA. A crítica a Henry Paulson, secretário americano do Tesouro, que esta coluna endossa, é que ele e Bernanke deveriam ter primeiro capitalizado os bancos e, em seguida, retirado os papéis ruins do mercado. Eles inverteram a ordem e só agora estão capitalizando os bancos; 4) o Congresso só autorizou a utilização imediata de US$ 250 bilhões do pacote de US$ 700 bilhões.

BOLSA RECUA, ECONOMIA TAMBÉM

Há um argumento final, mas não muito convincente: a bolsa despencou depois de quinta-feira porque a economia está recuando. Isso é apenas meia verdade. A economia dos EUA já estava desacelerando quando o mercado se recuperou e as bolsas foram às nuvens. Os resultados mais negativos vieram apenas ontem. Ou seja, já se sabia há pelo menos duas semanas que a economia americana está ameaçada de recessão. Não houve fato novo, nesta semana, que acentuasse o risco, além da redução do consumo.

O CENÁRIO NO BRASIL

No Brasil, o cenário tem semelhanças, mas forte diferença. Ele nos afeta da seguinte forma: 1) a nossa bolsa sente mais o choque externo, está batendo recordes de alta e de baixa, mas isso é por causa daconcentração em empresas ligadas a matérias-primas, que recuam, à alavancagem que depende de crédito e ao fato de as cotações estarem muito distendidas, em clima de forte teor especulativo; 2) o BC está injetando centenas de bilhões de reais para elevar a liquidez e manter o crédito ao setor produtivo, à exportação e ao consumidor. Vamos viver ainda algum tempo em meio a esse furacão, esperando que EUA e Europa não demorem para agir, e o governo (Lula, Meirelles, Mantega) continue acertando, como estão fazendo até agora. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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