Os momentos que deviam ser de descontração estão mais para instantes de tensão. O nervosismo intenso nas bolsas de valores de todo o mundo mudou por completo a vida de quem o ganha-pão está diretamente relacionado ao mercado financeiro.

No centro da capital paulista, onde está localizado o único pregão viva-voz do País, operadores têm gasto menos tempo - e dinheiro - em restaurantes e bares o assunto é um só: o intenso sobe-e-desce de ações, índices e moedas, o que dificulta a arte de negociar. Nas academias de ginástica, chovem reclamações dos alunos de noites mal dormidas.

"Alguns dos nossos clientes brincam dizendo que só vão comer aqui enquanto têm certeza de que podem pagar", conta Fábio Marcelo Vitório Costa, maître do Café Girondino, estrategicamente localizado perto dos prédios da Bolsa de Valores de São Paulo e da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). "As conversas sempre incluem reclamações sobre o mercado e muitos palavrões." No bar Salve Jorge, exatamente na frente da BM&F, o tempo dedicado pelos operadores aos tradicionais happy hours diminuiu. "A permanência dos clientes é menor, principalmente nos dias de circuit breaker", admite o sócio da casa, Caio Tucunduva Philippi. "Eles estão com um semblante mais pesado. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer."

Na academia Bio Ritmo, que tem convênio com as Bolsas, a freqüência não aumentou como forma de aliviar o estresse. Os professores comentam, no entanto, que os alunos ligados ao mercado financeiro reclamam com freqüência de insônia. "Os alunos estão meio loucos e ficam comentando a volatilidade dos preços entre si durante as aulas", conta a assistente de gerência Aline Cesário.

Os sentimentos de incerteza e frustração acometiam, ontem, dia em que a queda do Ibovespa ultrapassou 10% e o mecanismo de circuit breaker foi acionado - o agente autônomo Márcio Garcez Nascimento, de 30 anos, há 12 trabalhando com investimentos. Depois de 20 dias de férias em setembro, ele deveria ter retornado ao trabalho na semana passada, mas não foi bem isso que aconteceu. "Com tanta volatilidade, passei a semana em casa. Hoje foi o primeiro dia em que vim trabalhar, e já estou indo embora", contou. Até as 14 horas ele não havia fechado qualquer negócio. Garcez, como é conhecido, não tem clientes. Trabalha meio período na BM&F como operador de pregão da corretora Interfloat e, na outra metade do dia, negocia contratos futuros de Ibovespa com a própria poupança. Mas hoje não conseguiu fechar nenhum contrato sequer. "Falta liquidez", afirma. Com poucas operações de compra e venda sendo realizadas, fica difícil "sair" do mercado quando a situação começa a piorar. O resultado: amargar prejuízo. Ele diz que, felizmente, ainda não fechou nenhum mês com prejuízo e destaca que a volatilidade reduziu o número de negócios. "O mercado está muito assustado."

Para evitar prejuízo, o scalper (profissional que opera dentro da Bolsa para administrar o próprio dinheiro) da BM&F Vagner Blanes evita investir de um dia para o outro - ou seja, negocia durante o dia, mas encerra o expediente sem qualquer tipo de investimento. "Às vezes a gente termina o pregão bem, às vezes não, mas isso faz parte do mercado financeiro", afirma o profissional, que trabalha no setor desde 1986, há sete anos como autônomo. "Está difícil", conclui.

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