O trabalho começa pontualmente às 8 horas: operadores de mesa e analistas da Itaú Corretora se reúnem para conversar com os operadores localizados em Nova York, Londres, Tóquio, Hong Kong e Dubai, e saber sobre o desenrolar do pregão nas bolsas desses locais. Depois, discutem o resultado de empresas brasileiras.

A reunião dura exatamente 30 minutos.

Depois disso, alguns gravam depoimentos em vídeo e áudio para serem enviados a clientes e colocados na internet. E um pouco antes das 9 horas, tudo está pronto para o início do pregão no Brasil.

Os operadores assumem seus postos: monitores ligados, microfones próximos ao rosto, as primeiras ligações para alguns clientes... E quando começa o pregão, é como se começasse uma corrida de cavalos. Alguns operadores falam tão depressa quanto os narradores do jóquei. Outros equilibram mais de um telefone no ouvido ao mesmo tempo, enquanto milhares de números piscam nos monitores dos computadores.

Não há a gritaria do antigo pregão da Bolsa, é verdade, mas ainda assim, a tranqüilidade passa longe do lugar. Se algum indicador oscila mais bruscamente, soam vários apitos de mensagens chegando nos computadores. E o processo é semelhante na maioria das corretoras do País.

"Pressa e stress não são uma conseqüência, são parte do trabalho", diz Roberto Nishikawa, presidente da Itaú Corretora. "E, apesar da pressa e das pressões, o operador não pode passar nervosismo ao cliente, muito pelo contrário: ele precisa ter uma visão macro da economia e passar segurança para o cliente decidir o que fazer." No Itaú são 150 pessoas trabalhando nas mesas de operação, e mais 50 devem se juntar ao time no ano que vem. Os operadores trabalham sempre em duplas ou trios, para que quando um precisar sair, os outros conheçam os clientes e negociações em andamento.

Cada cliente precisa de uma abordagem diferente, diz Carlos Kayatt, gerente da mesa de clientes preferenciais do Santander e operador há 28 anos. "Tem aqueles que se você não ligar cinco vezes ao dia, acha que foi abandonado. Outros, se receberem ligação uma vez por dia, acham uma chatice." Cada operador da mesa dele atende a cerca de 50 clientes. "Em momentos turbulentos como os das duas últimas semanas, nunca podemos dizer ao cliente que não sabemos pra que lado o mercado vai. Precisamos ter calma e explicar para ele todo o cenário, para que ele tome a decisão."

"O número de telefonemas diminuiu muito, a maioria dos pedidos hoje vêm online", explica o superintendente da mesa de operações institucionais da Itaú Corretora, Octávio Caruzo. Há 14 anos, ele trabalha como operador. "Mas estar menos ocupado com a parte técnica não significa menos trabalho. Quando mais o computador faz coisas sozinho, mais precisamos nos dedicar a explicar os cenários aos investidores."

Segundo ele, as duas últimas semanas foram muito agitadas, mais até do que o "normal" da profissão. "Vimos a Bolsa cair 10% num dia para subir 7% no outro, o dólar disparou, aconteceu de tudo um pouco." A saída para driblar o stress, então, é tentar levar uma vida saudável fora do escritório. "O stress vai até as 17 horas, depois você esquece. Se continuar pensando no que pode acontecer com o mercado, você não vive." Caruzo conta que, para relaxar, pratica tae kwon do. "Cada um precisa achar uma válvula de escape", diz Nishikawa, ele próprio um praticante de triatlo.

A prática de atividades físicas é um dos principais cuidados que os operadores devem ter para evitar chegar ao stress extremo, chamado burnout, diz Ana Maria Rossi, presidente do braço brasileiro da International Stress Management Association (Isma-BR). "O stress a que os operadores do mercado financeiro estão expostos é comparável ao de profissões como controladores de vôo ou profissionais de saúde em emergência de hospitais: ele não é eventual, e sim uma constante do trabalho", explica.

Os problemas mais comuns nesse tipo de profissional, segundo Ana Maria, são as dores de cabeça e musculares, aumento da freqüência cardíaca (e por conseqüência, da pressão), insônia e alterações no comportamento. "A pessoa se torna ansiosa, depois angustiada, raivosa até o ponto de se tornar cínica."

Porém, todo esse quadro pode ser evitado se a pessoa se conscientizar de que a pressão é rotineira e iniciar uma vida mais saudável, diz Ana Maria. "Além dos exercícios, uma alimentação saudável e uma roda de amigos e familiares compreensivos ajuda muito o profissional de mercado a se manter saudável. Ser criticado por amigos e familiares pelo excesso de trabalho só torna a situação mais propícia a doenças."

O grafista (especialista na criação e análise de gráficos de mercado) Márcio Lacerda, também da Itaú Corretora, diz que a carreira é dura, porém gratificante. "É preciso ter formação preferencialmente em exatas, certificação da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), sangue-frio e muito gosto por desafio", diz. "Para quem tem tudo isso e trabalha com afinco, o retorno é muito bom - somos, por exemplo, remunerados por número de clientes e recebemos bônus por operações bem-sucedidas." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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