É difícil sair de algum cruzamento do bairro da Vila Sônia, na zona sul da capital paulista, sem ganhar um folheto de novo empreendimento imobiliário. Garotas segurando placas indicando dois dormitórios, imperdível ou residencial de luxo também viraram figurinha carimbada de uma região que ganhou 2,5 mil apartamentos no ano passado.

De olho na valorização do metro quadrado, que alcançou 45% nos últimos cinco anos, a Prefeitura pretende agora tirar proveito desse boom de prédios e lançar no mercado a Operação Urbana Vila Sônia - incentivo que deve multiplicar o movimento de verticalização e trazer mais 37 mil moradores para o bairro até 2027.

A criação da Operação Urbana vai ampliar o potencial construtivo da região, pois permitirá um coeficiente de aproveitamento dos terrenos muito maior do que o permitido em outras áreas. Serão exatos 1,356 milhão de metros quadrados de potencial adicional. Para poder aproveitar essas novas regras, as construtoras têm de adquirir títulos da Prefeitura, chamados de Cepacs, cujo valor será reutilizado em obras na própria Vila Sônia. O governo, que espera lançar a operação nesse primeiro semestre, calcula arrecadar R$ 300 milhões e utilizá-los na construção de um túnel, parques e moradias populares.

"Queremos disciplinar esse crescimento e controlar o adensamento", diz o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Miguel Luiz Bucalem. "Queremos incentivar a construção em dois principais polos, em volta das futuras estações do Metrô Butantã e Vila Sônia. Com isso, criaremos subcentralidades, o que vai facilitar o deslocamento dos moradores."
Com o valor arrecadado em Cepacs, o governo vai fazer um parque linear, recuperar os parques já existentes, melhorar calçadas e construir um túnel para as avenidas Corifeu de Azevedo Marques e Eliseu de Almeida. Além disso, 12% de todo o valor arrecadado será usado em regularização fundiária e reubanização de duas favelas - o Morro da Fumaça e o Jardim Jaqueline. "Queremos antes conversar com os moradores para explicar que a Prefeitura não quer simplesmente adensar o bairro ao limite", diz o secretário.

O grande problema da Prefeitura, no entanto, é o "atraso" da operação, uma vez que a Vila Sônia virou a bola da vez no mercado imobiliário há quase quatro anos. O motivo é a chegada das próximas estações da Linha Amarela do Metrô, que ligará a zona sul ao centro - até então, era um bairro repleto de casas, que vêm dando espaço para torres residenciais com apartamentos entre R$ 350 mil e R$ 1 milhão. De acordo com as planilhas da Secretaria Municipal de Habitação, pelo menos 15 empreendimentos devem subir nos próximos anos sem que o governo ganhe um centavo - sem falar os prédios que já foram lançados e não utilizaram Cepacs.

"Parece sempre que a nossa cidade está com o freio de mão puxado quando lida com assuntos urbanísticos, principalmente no que diz respeito à ocupação do solo", diz João Crestana, presidente do Secovi-SP. "Obviamente o mercado tem interesse na região, o metrô e a Copa do Mundo vão criar um eixo de desenvolvimento ali. Se tivermos regras claras, dá para fazer muita coisa boa no bairro."

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