A descoberta das reservas de petróleo do pré-sal será positiva para o Brasil, mas a curto prazo e por algum tempo não terá grande impacto no mercado mundial. A afirmação é do equatoriano Germanico Pinto, presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e ministro de Petróleo do Equador.

Em entrevista ao Estado e a outros dois jornais internacionais, Pinto também falou dos preços do petróleo e das decisões da Opep em relação aos níveis de produção. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o impacto que a descoberta do pré-sal terá para os preços do barril de petróleo?

Para o Brasil, será positivo. Muito positivo. Mas a curto prazo e por algum tempo não acredito que terá grande impacto no mercado mundial. Quando o Canadá descobriu petróleo em grandes quantidades, todos diziam o mesmo, que as reservas mudariam a política do petróleo no mundo. Não foi o que ocorreu.

Como o sr. avalia o preço atual do barril do petróleo, em pouco mais de US$ 80?
Essa situação é bastante estável e positiva para todos. Os preços atuais permitem que os investimentos em extração voltem a ocorrer. Em 2009, com a queda no valor do barril, projetos foram adiados e cancelados. Agora, essa média de US$ 70 a US$ 80 permitiu que empresas voltem a investir e governos tenham recursos para preparar a infraestrutura necessária.

Qual a sua perspectiva de preços para 2010?

Acredito que o valor do barril vai se manter na atual base pelo restante do ano. Não sou bruxo para saber o que vai ocorrer, mas estamos vendo os primeiros sinais de que a recessão está sendo superada. É uma boa notícia para o mercado de energia.

Quais seriam os riscos para a volatilidade dos preços do petróleo em 2010?

O principal é a incerteza nos mercados. Estamos numa fase de recuperação. Mas sabemos que ela é frágil. Por isso, estamos atentos ao mercado.

Há uma semana, o sr. decidiu, juntamente com o restante dos países da Opep, manter os níveis de produção. Qual a garantia de que os governos da Opep cumpram essas metas?

Estamos confiantes, pois é um acordo bem recebido por todos. A Opep é uma organização já de 50 anos. Mas é uma das poucas que vieram dos países do sul. Por isso, tem identidade única, o que nos permite ver a coisas de forma diferente. Tenho certeza de que a Opep continuará um ator fundamental no cenário energético mundial.

Há 20 anos, grande parte da produção mundial estava nas mãos de multinacionais. Hoje, 70% está com estatais de países emergentes. Como isso mudou a relação de força entre a Opep e empresas multinacionais?

Sempre que discutimos isso voltamos ao mesmo ponto: soberania. Cada país deve ter o direito de fazer o que quiser no setor de energia. Às vezes, se esquecem de que somos um país soberano e temos uma política específica. No Equador, por exemplo, queremos fortalecer nossa estatal e consolidar o setor. O Estado precisa ter um papel central nessa questão. Outro ponto de nossa política é que estamos redefinindo a forma de lidar com as empresas estrangeiras que atuam no país. Queremos, finalmente, fortalecer nossas alianças estratégicas com empresas estatais de outros países.

E em qual categoria está a Petrobrás?

A empresa atua mais como uma empresa privada. Não queríamos que fosse assim. Preferiríamos ter alianças estratégicas com estatais.

A Petrobrás será alvo da renegociação no Equador?

Sim. Já estamos conversando.

As empresas estrangeiras estão de acordo com as condições apresentadas pelo governo?

Elas estão negociando duro, mas somos ainda mais duros. Queremos passar de uma situação de exploração compartilhada para uma de prestação de serviços por essas empresas.

Existe algum risco de faltar petróleo no médio prazo?

Não prevemos problemas por pelo menos dez anos. A base energética mundial não vai mudar nesse prazo. Às vezes, dizem que precisamos partir para energia renovável. Mas sabemos que o consumo continuará a ser de petróleo em sua maioria. Essa é a realidade do planeta por anos ainda.

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