A crise global desenterrou o fantasma do nacionalismo na Europa. A situação explodiu com a onda de paralisações deflagrada por trabalhadores britânicos em oposição à contratação de estrangeiros.

O viés protecionista também ganha corpo nas declarações de governos de diversos países europeus. Existe a preocupação de que esse movimento cresça diante da forte retração econômica e das demissões em massa já feitas - o que representa preocupação para a força de trabalho estrangeira.

No Reino Unido, uma série de manifestações começou quando a refinaria de petróleo Lindsey, na cidade de Killingholme, decidiu contratar uma empresa italiana de engenharia para ampliar suas instalações. Foram recrutados então cerca de 200 empregados temporários italianos e portugueses, supostamente por salários mais baixos.

No final de janeiro, os funcionários da refinaria decidiram entrar em greve com o lema "Empregos britânicos para trabalhadores britânicos" - ampliando o risco de xenofobia. Atos semelhantes se espalharam pelo país, levando à paralisação de seis mil funcionários em 22 empresas. Para resolver a situação, a Lindsey, que pertence à francesa Total, teve de recuar e garantir que pelo menos metade dos novos contratados será britânica.

"É claro que poderemos ver mais manifestações desse tipo em outros países da Europa", afirmou à Agência Estado o presidente do Centro de Estudos de Política Europeia, instituição independente baseada em Bruxelas, Karel Lannoo. Para ele, as greves partiram do Reino Unido porque o país foi o mais afetado pela crise. "O problema no Reino Unido começou antes e é mais profundo, mas me surpreende ver uma manifestação dessas em um lugar que sempre foi contrário a questões nacionalistas na União Europeia."

Mesmos direitos

As regras da UE preveem que os cidadão podem trabalhar em qualquer país do bloco, com movimentação livre e com os mesmos direitos. "Não existe problema legal na contratação dos italianos e portugueses e essa posição não ajuda a União Europeia", afirmou Robert Hancke, doutor da London School of Economics and Political Science (LSE).

O episódio fez até o comissário europeu do Emprego e dos Assuntos Sociais, Vladimir Spidla, cogitar a reavaliação das regras de livre movimentação no bloco.

Os especialistas acreditam que a indisposição entre os europeus é maior do que em relação a trabalhadores de países em desenvolvimento. Isso porque o trânsito de pessoas dentro do continente é mais forte do que o fluxo de imigrantes de outras regiões. "Mas a situação deve ficar mais difícil para aqueles que vêm de lugares mais pobres e não têm qualificação", acredita Hancke. "Já existe uma grande força contra a imigração ilegal, que agora deve ser reforçada", complementa Lannoo, do Centro de Estudos de Política Europeia.

Além das greves, a posição de diversos governos vem espalhando preocupações pelo continente. A França e a Suécia afirmaram que só irão ajudar as indústrias automobilísticas se elas se comprometerem a manter a produção em seus países, sem deslocamento para mercados com custo menor. "Se damos dinheiro para uma empresa automobilística, não é para que ela vá para a República Tcheca", disse o presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Na Grécia, o governo impediu os bancos de socorrerem filiais em outros países. O país também assistiu cerca de mil agricultores se manifestarem pedindo mais apoio financeiro do governo, entrando em choque com a polícia.

Na Espanha, o ministro de Indústria e Comércio, Miguel Sebastián, disse recentemente para a população introduzir o "fator espanhol" em suas opções de consumo, optando por produtos nacionais para impedir uma retração maior da indústria. A posição está em linha com o "Buy American", medida do pacote do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de exigir o consumo de minério e aço produzidos no próprio país.

"O nacionalismo econômico está transformando a crise econômica em política e ameaçando o mundo com a depressão", diz a revista The Economist, cuja capa desta semana aborda o tema.

Nesse ambiente, ministros de Comércio tentam retomar a Rodada Doha, para impedir que o protecionismo se espalhe pelo comércio. Para Karel Lannoo, o cenário torna a conclusão das negociações muito mais necessária. "É preciso usar este momento como oportunidade." Para Hancke, da LSE, a crise torna a conclusão de Doha muito mais complicada. "O mercado europeu ficará mais fechado."

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