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GENEBRA - A economia brasileira sofrerá este ano uma desaceleração mais forte do que o previsto, com o Produto Interno Bruto (PIB) registrando queda de 0,3% na avaliação anunciada nesta terça-feira pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A entidade estima, porém, que o País poderá retomar o crescimento mais pelo fim do ano e em 2010, graças à queda nas taxas de juros e à melhora nas condições de crédito. "O baque da economia brasileira tem sido agudo, mas já há sinais de que uma retomada é possível ainda este ano", afirma Luiz de Mello, economista que acompanha o Brasil no Departamento Econômico da OCDE.

A entidade anunciou novas estimativas às vésperas da reunião de cúpula do G-20, dos principais países industrializados e emergentes, em Londres, que deve tomar decisões para reagir à mais dramática recessão global em décadas. Diante das incertezas no cenário atual, a OCDE prevê contração mais acentuada da atividade econômica este ano. Nos EUA, Japão, na zona euro e no conjunto dos 30 países da OCDE, a produção baixará de 4% a 7% este ano e restará estagnada no ano que vem.

O crescimento do PIB mundial em termos reais deverá ter contração de 2,75% em 2009, antes de se recuperar para 1,25% no próximo ano.

A OCDE analisa os quatro principais emergentes, mostrando que a situação do Brasil ainda não é tão ruim quanto a da Rússia, por exemplo. Com a economia em colapso e o país torrando suas reservas internacionais, a Rússia poderá registrar declínio de 5,6% no PIB comparado à estimativa positiva de 2,3% em dezembro do ano passado.

A China crescerá 6,3% em vez de 8%, que é o mínimo necessário para gerar empregos, e a Índia avançará 4,3% e não 7,3%.

No caso do Brasil, a OCDE previa antes crescimento de 3% e agora transformou em recuo de 0,3%, entre outras razões, pelo estrago que os parceiros vêm sofrendo com a crise.

A OCDE nota que a contração de 3,6% no PIB brasileiro no último trimestre de 2008 foi maior do que se imaginava, empurrada pelo desmoronamento na produção industrial.

"Apesar de ser uma economia fechada, o impacto no Brasil foi grande com a contração no fluxo de comércio e endurecimento nas condições de crédito", diz Luiz de Mello.

A OCDE avalia que a situação já chegou ao fundo poço e que agora há condições para melhora. Nota que respostas imediatas à crise foram apropriadas e sugere que a queda de juros pode continuar em meados do ano. Mas alerta que já há pouca margem agora para "ativismo" adicional na área fiscal.

A entidade avalia que a execução do PAC pode compensar em parte a fraqueza no crescimento dos investimentos privados no País. Alerta, contudo, que os riscos para a recuperação persistirão se a retomada dos parceiros atrasar e se os juros tiverem de aumentar por causa de uma deterioração maior das finanças públicas.

Esse cenário se explica pela amplitude da reação negativa da demanda mundial privada à conjunção de três fatores: estrangulamento do crédito, queda no valor de patrimônio com perdas no valor dos imóveis e de ações e perda generalizada de confiança.

A OCDE diz que suas previsões supõem que as tensões nos mercados de capitais vão se atenuar mais para o fim deste ano, embora orientados para a baixa. O perigo mais grave é que, com o enfraquecimento da economia real, a saúde das instituições financeiras continua a se degradar, obrigando essas entidades a reduzir empréstimos.

Outro risco é de as ações dos governos serem insuficientes para restabelecer a estabilidade e a confiança. Além disso, algumas economias da Europa central e em desenvolvimento podem deixar de honrar seus débitos internacionais e o setor bancário nacional enfrentar crise maior. Isso agravaria a recessão mundial.

O impacto da recessão sobre as sociedades é enorme. O desemprego aumentará bastante em todos os países da OCDE, na maioria deles passando dos 10% pela primeira vez desde os anos 90.

O desemprego dobrará em relação a 2007 nos países do G-7, os mais ricos do mundo, onde poderá haver 36 milhões de desempregados ao final de 2010.

Para a OCDE, a medida essencial para frear a "hemorragia econômica" é uma ação decisiva sobre os ativos dos bancos e o problema de solvência do setor. Ou seja, é preciso esclarecer de vez sobre os ativos tóxicos e, se necessário, "recapitalizar ou nacionalizar" os bancos insolventes.

Medidas suplementares de relance macroeconômico também são consideradas cruciais para frear a baixa na demanda global.

A OCDE nota que, apesar da recessão ser extremamente severa, a economia mundial está longe de outra "grande depressão" como ocorreu nos anos 30.

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