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Obama é candidato em ano que EUA revêem lei de cotas

DENVER - No ano em que pela primeira vez um negro tem chances de chegar à Presidência dos Estados Unidos, políticas públicas que tornaram menos íngreme a ascensão dos negros na sociedade americana poderão ser abolidas pelos eleitores em três Estados que estão organizando consultas populares sobre o tema.

Valor Online |

Se as propostas submetidas a referendo nesses lugares forem aprovadas, os Estados ficarão proibidos de dar preferência a negros, mulheres e outras minorias na entrada das universidades, na seleção dos funcionários públicos, nas compras do governo e na contratação de obras. Os referendos ocorrerão no Colorado, em Nebraska e no Arizona.

São grandes as chances de que as iniciativas sejam bem-sucedidas. Três outros Estados aprovaram propostas semelhantes nos últimos anos, Califórnia, Michigan e Washington. Pesquisas indicam que a idéia tem apelo popular crescente mesmo entre os negros, um reflexo das transformações sofridas pela sociedade americana nas últimas décadas.

Segundo um levantamento feito no ano passado pelo Centro de Pesquisas Pew, 57% dos negros americanos acreditam que o país deveria fazer algo para ajudá-los a melhorar sua posição social, mesmo que isso implicasse em algum tipo de tratamento preferencial. Em 1991, 68% dos negros tinham a mesma opinião. Apenas 27% dos brancos concordam com a idéia hoje.

Para os defensores das políticas de ação afirmativa, elas são necessárias para evitar que a discriminação racial e outros preconceitos bloqueiem o acesso das minorias a bons empregos e vagas nas melhores universidades. Mas muitos americanos acham que o país mudou e apontam o êxito do senador Barack Obama na corrida presidencial como um sinal óbvio disso.

O sucesso que ele obteve até aqui mina o principal argumento que costuma ser usado para justificar as preferências , disse ao Valor o empresário Ward Connerly, um ativista que organiza campanhas contra as políticas de ação afirmativa há vários anos e está por trás dos referendos deste ano. Se o país é racista, como explicar que tanta gente esteja disposta a votar em Obama para presidente?
Os negros avançaram muito nos EUA desde a década de 60, quando a segregação racial no Sul do país acabou e as políticas de ação afirmativa começaram a ser implementadas. Eles assumiram lugares de destaque na academia, no mundo corporativo e no setor público, e foram viver nos mesmos bairros de classe média onde os brancos moram.

Mas os negros ainda são maioria nos presídios e nos bairros pobres das grandes cidades. Seu desempenho nas escolas é em geral bastante inferior. Em média, a renda de uma família negra nos EUA é 38% inferior à das famílias brancas, segundo o censo americano. No início dos anos 70, a diferença era de 43%.

Connerly é negro como Obama, mas não pretende votar nele porque não gosta das suas idéias. O empresário acredita que a renda das pessoas deveria substituir critérios como raça e gênero no desenho das políticas de ação afirmativa, para evitar que a reparação das injustiças cometidas com negros e mulheres no passado crie injustiças para outros grupos no presente.

Obama raramente fala do assunto, e suas posições sobre o tema parecem deliberadamente ambíguas. Ontem, no discurso em que aceitaria a candidatura, ele falaria no 45º aniversário do famoso discurso I Have a Dream , de Martin Luther King, numa concessão ao tema. Num debate em abril, ele afirmou ser a favor das preferências raciais, mas disse que não acharia justo que suas duas filhas fossem beneficiadas por causa da cor da pele na hora de entrar na faculdade. As duas estudam numa escola particular.

Em 1990, quando Obama estava estudando Direito em Harvard, ele escreveu numa carta para o jornal dos estudantes que sem dúvida havia sido beneficiado pelas políticas de ação afirmativa. Mas numa entrevista que concedeu dez anos depois, quando já estava na política, ele disse que não tinha como saber se a sua cor ajudara no processo de admissão da universidade.

Num encontro com eleitores em julho, Obama disse que as políticas de ação afirmativa deveriam ser desenhadas de maneira que crianças privilegiadas como suas filhas não obtenham tratamento mais favorável do que um garoto branco pobre e num dos seus livros ele manifesta simpatia por adotar a renda como gatilho para as preferências, em vez da cor da pele.

Mas Obama nunca defendeu essa idéia com clareza na campanha eleitoral, o que poderia abalar a confiança que os eleitores negros depositam nele. A plataforma oficial do Partido Democrata, aprovada nesta semana na convenção que sacramentou a candidatura de Obama, defende a manutenção das políticas de ação afirmativa para garantir que os que ficaram na rua sem oportunidades possam entrar nessas portas no futuro .

(Ricardo Balthazar | Valor Econômico)

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