Obama criou rede social para mobilizar e organizar voluntários Por Pedro Doria Palo Alto, EUA, 05 (AE) - Depois de Barack Obama nunca mais uma campanha eleitoral será igual nos Estados Unidos. Talvez nem no mundo.

Pela primeira vez um candidato ao cargo mais importante do planeta colocou a internet e outros meios tecnológicos no coração de sua estratégia desde o início de suas pretensões presidenciais, em 2007, quando elas ainda pareciam um sonho. Rede social, YouTube, Twitter, mensagens de texto via celular, propaganda em videogame foram as armas digitais usadas pelo democrata, antes um senador pouco conhecido.

Seu rival republicano, John McCain, bem que tentou correr atrás, mas a dianteira de Obama na web estava consolidada. E o desafio de transformar esse entusiasmo virtual em votos na urna se consolidou. A internet, daqui em diante, ocupará um papel central na política americana. E, em breve, de outros países.

A rede mundial de computadores, com sua capacidade de mobilização barata e descentralizada, alavancou a candidatura do democrata Barack Obama de forma bem mais sofisticada e eficiente do que a campanha do republicano John McCain, mais tradicional, foi capaz.

A arrecadação de recursos via web é um dos resultados mais palpáveis dessa estratégia virtual: do início de 2007, quando lançou sua pré-candidatura no Partido Democrata, ao último dia 15, Obama arrecadou US$ 640 milhões, grande parte disso por meio de pequenas doações individuais.

Entre as primárias republicanas e a campanha propriamente dita, McCain arrecadou US$ 360 milhões (incluindo o financiamento público, do qual Obama abriu mão).

Mas quem vê apenas essa quantidade abissal de dinheiro não entende como Obama venceu, nas primárias, a candidata favorita da elite democrata, Hillary Clinton. Nem como chegou à véspera da eleição como franco favorito. A chave do fenômeno está na arregimentação e organização online de voluntários (além de outras ferramentas hi-tech como mensagens de texto, anúncios em videogames ou mesmo o velho celular).

À primeira vista, quem visita os sites johnmccain.com e obama.com não vê maior diferença. Em ambos há convites para que o eleitor se inscreva, pedidos de doação e venda de camisetas e adesivos, sem falar em filmetes, textos biográficos e programa de governo. A diferença está em como os dados angariados são utilizados: na base do site obama.com, há um software de rede social mais complexo que o de um Orkut ou um Facebook.

Parêntese: nos EUA, o voto não é obrigatório e, mais difícil do que convencer um eleitor a escolhê-lo, é entusiasmá-lo a sair de casa e votar.

Quem se inscrevia na rede de Obama era imediatamente convocado a ajudar. A eles, se pedia, por exemplo, sugestões de nomes de eleitores com alguma inclinação democrata (e independentes ou até republicanos descontentes). Tais nomes são incluídos em grandes bancos de dados cuidadosamente estruturados, que reúnem listas detalhadas de indecisos em todo o país. É algo sem precedentes.

Então os voluntários recebiam, via web, missões bem específicas como ligar ou fazer visitas a eleitores em sua vizinhança. Ganham uma lista de endereços, telefones e argumentos; e a missão de convencer potenciais eleitores um a um.

Foi nas primárias democratas no Texas, em 4 de março, que a vantagem propiciada por esse banco de dados ficou clara. Hillary era favorita, diziam as pesquisas, mas as regras eleitorais do estado são complexas. Não é apenas o voto na urna que conta. A presença de eleitores em reuniões de discussão, à noite, também tem peso. Nunca ninguém havia ligado para tais reuniões, conhecidas como "cáucus", porque convencer cidadãos a comparecer é difícil.

Mas, com o mapa de voluntários e eleitores nas mãos e disparando emails e mensagens de SMS, a equipe de Obama enviou tantos eleitores a essas reuniões que Hillary ganhou nas urnas mas perdeu nos cáucus. Em primárias disputadas voto a voto, isso foi determinante para Obama tirar a poderosa Hillary da frente.

MOMENTO CHAVE - Obama.com é criação da empresa Blue State Digital. Seus fundadores trabalharam, em 2004, na campanha derrotada do atual presidente democrata, Howard Dean, que inovou no uso da internet. A turma estava disposta a trabalhar para quantos candidatos democratas os contratassem. Só Obama quis.

Numa eleição indireta como a dos EUA, tem mais chances quem vence nos estados com mais peso eleitoral - e mais delegados no Colégio Eleitoral. McCain conduziu uma campanha tradicional e tem sua equipe concentrada nesses grandes estados. Obama, além de funcionários pagos, também contou com o grande número de voluntários conectados pela rede mundial de computadores.

Nas últimas semanas, aqueles que vivem em estados essenciais como a Flórida foram instruídos a votar cedo, pegar seus carros e rumar para cidades específicas. Um terá a responsabilidade de dar carona a aposentados até a urna. Outro fiscalizará zonas eleitorais que deram problema em outras eleições.

Só no Missouri, estado pequeno mas decisivo, foram 25 mil voluntários pró-Obama, cuja mobilização virtual não tem precedentes. Eleição ainda é voto na urna, um por um. Mas o resultado real comprovou a eficácia da estratégia de Obama.

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