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Os sonhos têm de ser sempre maiores que as memórias. É esse o lema de Miguel Krigsner, fundador e presidente do Conselho de Administração de O Boticário, seu primeiro e único emprego ou negócio, que ele garante ter criado quase que por acaso, mas que lhe exigiu muita dedicação ao longo dos últimos 31 anos.

Aos 58 anos, ele aponta os cabelos brancos para mostrar que as três décadas à frente do Boticário não foram fáceis. "Aprendi que para o negócio ir adiante é preciso sempre ficar à sua frente, gostar do que se faz e assim que concretizar o primeiro sonho partir para o próximo."

Ao concluir a Faculdade de Farmácia e Bioquímica em 1975, Krigsner teve a atenção atraída para as primeiras farmácias de aviamento de receitas em Porto Alegre. Dividido entre a dermatologia e a endocrinologia, optou pela primeira e, em 1977, abriu uma farmácia de manipulação chamada O Boticário no centro de Curitiba, no Paraná. "Era um espaço de 30 metros quadrados no máximo, mas que atraía pela decoração com cara de butique."

Cada dia mais interessado pela cosmética e a perfumaria, fez cursos em busca de produtos de primeira linha. "Afinal, para um produto 'cego', já que todos os cremes eram brancos e a diferenciação se dava mesmo só no uso, era preciso buscar matéria-prima de alta qualidade". A divulgação boca-a-boca foi tamanha que logo Krigsner ampliou a farmácia.

O Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, abriu uma concorrência para ocupação de uma área. "Imagine um local com apenas 12 pousos por dia e quase sempre fechado por falta de teto. Pois bem, só eu me candidatei e ganhei a concorrência." Abriu sua segunda loja, em 1979, e mal sabia que as comissárias de bordo, com suas malas sempre cheias de produtos O Boticário, iriam levar a marca para todo o interior do País e possibilitar o surgimento das primeiras franquias.

Outra grande oportunidade apareceu quase ao mesmo tempo. Sílvio Santos conseguiu na época a concessão do canal 4. Krigsner foi informado, em visita à Gessy Lever (hoje Unilever), que o animador de TV estava se desfazendo de um grande lote de embalagens de perfumes. Ganhara a emissora e desistiu de concorrer com a Avon e Christian Grey. "Num galpão na Vila Guilherme, em São Paulo, encontrei pilhas de caixas com frascos de perfume, envases de cremes e xampus até o teto. Era levar tudo ou nada por US$ 60 mil! Ou seja, a minha receita de dois anos. Sugeri um parcelamento em dez vezes e deu certo", recorda.Os frascos ganharam fragrâncias e despertaram o interesse de executivos que apareciam no Afonso Pena. Daí surgiu a primeira franquia em 1980, em Brasília.

Dois anos depois a empresa abria uma fábrica em São José dos Pinhais. "Tinha 1 mil metros quadrados e 27 funcionários. Hoje estamos lá com 60 mil m2 e 1.200 empregados", destaca. Em 1985 aconteceu a primeira convenção de franqueados, reunindo mais de 500 comerciantes. Foi um marco, porque todos concordaram em usar o nome O Boticário. Até então, muitos comercializavam o produto, mas as lojas tinham nomes fantasias variados. Ainda naquele ano ocorreram outros fatos marcantes: o lançamento da primeira fragrância masculina, Stiletto, do Thaty para adolescentes (primeiro lugar na preferência das garotas por nove anos consecutivos).

Krigsner, que se refere ao período Collor como "quase que uma cólica", entende que o crescimento de O Boticário está ligado à busca contínua por qualidade, aliada ao aproveitamento de oportunidades. "A loja em Portugal foi aberta com os restos do estande de uma feira da qual participamos ." Até a estabilização da moeda obrigou a empresa a mudar o sistema de distribuição. "Fizemos com que os franqueados reforçassem suas lojas, sem fuga de capital, reinvestindo nelas próprias. O Brasil se modernizou muito em logística e informática, concorrendo com produtos internacionais."

Dentro da ótica de que renovar é imperativo para atender ao cada vez mais exigente consumidor, as lojas do Boticário se tornaram em 2007 interativas. Com a retirada dos balcões, as pessoas passaram a pegar diretamente os produtos. "Essa simples medida deu um incremento de 30% na receita das lojas", revela o fundador. "Criar uma relação com os parceiros em que todos ganhem e trabalhem com prazer é fundamental. Só assim o negócio se torna saudável e com possibilidade de evolução. O conselho que costumo dar aos que querem empreender é que entre para valer, acredite e arrisque - com certo cuidado, é claro. Como fiz quando comprei as embalagens do Sílvio Santos. Tratei de deixar pronta uma cartinha de devolução para o caso de não conseguir me desfazer de todo aquele material", brinca o empresário Miguel Krigsner.

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