Em meados da década de 1980, os moradores de Assunção tinham um comportamento mais machista que o brasileiro. Um homem, fosse pai ou filho, nunca se levantava da mesa para pegar sua própria comida. Eram servidos pelas mulheres e mães, lembra o brasileiro Valdinarte Cardoso de Oliveira, o Cardoso. Foi nesse cenário que ele montou sua primeira churrascaria self-service no Paraguai.
Sua ideia, no início, era maluca e desafiadora. Além de exigir que as pessoas se levantassem para comer, havia o medo do novo, que ele atribui aos 35 anos de ditadura. “Até hoje, quando crio um prato novo, tenho que praticamente forçar os clientes locais a comer”, diz. Com essa estratégia, ele afirma que ensinou o paraguaio a gostar do corte de carne brasileiro. “O paraguaio comia a picanha num pedaço maior, que trazia outros cortes do boi, que se chamava rabadilla. Muitas vezes levavam coxão mole no lugar da picanha e, sempre, tiravam a gordura!”, lembra, se divertindo.
Com seu jeito expansivo, Valdinarte foi conquistando um a um, na lábia. “Até hoje passo de mesa em mesa para cumprimentar os clientes.” Muitos ficam amigos e voltam sempre. No começo de fevereiro, duas mesas cantavam parabéns. Em uma delas, fazia aniversário a filha do senador argentino José Mayans, e a família comemorava com um almoço no Cardoso. O senador mora na cidade argentina de Formosa, do outro lado do rio Paraguai. “Venho sempre aqui, somos amigos.”
Cardoso também apresentou aos paraguaios a feijoada e o cupim. Trouxe mulatas do Rio de Janeiro para animar os salões e diz que ensinou os restaurantes da capital a abrir todos os dias, sem folga. “Comecei a fazer os homens levantarem para se servir. Tinha gente que levantava, pegava um pedaço de queijo e voltava a sentar, só para passear, ver e ser visto”, afirma.
Acuarela é o nome de sua churrasqueria, hoje com 520 lugares, mas que deve ficar menor, pois as oportunidades atuais do Paraguai estão crescendo e Valdinarte quer diversificar. Depois de 25 anos trabalhando com churrascarias, ele vai modernizar e reduzir o tamanho do restaurante. “Ter uns 250 lugares.”
Atualmente, Cardoso tem outras cinco empresas, dos setores mais diversos: Hidraubrás (serviços de hidráulica), Movitec (logística), Parker (peças para maquinário), Braspar (imobiliária) e Estilo Design (loja de móveis). Com tantos negócios, diz que não desistiu da carne porque a Acuarela é sua “menina dos olhos”. “Mais da metade dos meus clientes hoje diz que está indo almoçar no Cardoso, e não no Acuarela. Isso é importante.”
Ainda na moda
Apesar das instalações tradicionais e das décadas de existência, o Acuarela ainda é um dos mais citados pelos jovens paraguaios quando o assunto é os restaurantes mais badalados da capital. Valdinarte admite que seu público está mais novo. Os estrangeiros, presença cada vez mais marcante na cidade, são metade dos comensais. A reportagem do iG visitou a Acuarela numa terça-feira à tarde. Em uma mesa comiam clientes orientais. Em outra, holandeses. Alemães almoçavam em outro canto e havia ainda muitos argentinos espalhados pelo salão.
A churrascaria Acuarela, do "Cardoso"
A churrascaria não está encolhendo por falta de clientela. O crescimento econômico gerado pelas exportações de produtos agrícolas paraguaios se refletiu no consumo interno. Brindado por uma das melhores safras de soja todos os tempos, o Paraguai despontou como o grande líder no crescimento em Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, na região: 9,7% de alta, segundo projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal). José Arroyo, economista da Cepal no Paraguai, diz que a agricultura é responsável por mover 20% de toda a economia.
Dinheiro no bolso refletiu no consumo de serviços que, segundo o Banco Central do país, cresceu 8,9% no ano passado. Dentro dele, o comércio avançou 10,9%. Hoje, 160 restaurantes funcionam na capital do Paraguai. Campinas (SP), quase do mesmo tamanho, tem 196, segundo o site de turismo da cidade. Cardoso, que diz ter parado no Paraguai depois de ter perdido muito dinheiro com os congelamentos do ex-presidente Sarney, chegou a ter 12 churrascarias, uma delas com 1,5 mil lugares e 500 funcionários. “Por 13 anos fui o único dono de churrascaria da cidade. Cobrava o que queria e não oferecia muito. Naquela época, tudo o que o paraguaio queria era mandioca, macarrão e costela”, afirma.
“Hoje Assunção tem 32 churrascarias. Do total, 19 são de ex-funcionários meus.” O número citado por Cardoso supera o de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, estado conhecido pela tradição em churrasco. Segundo o site de turismo Porto Alegre Tur, a cidade possui 27 churrascarias.
Números do Acuarela
2,5 toneladas de carne por semana
62 funcionários
23 tipos de carne
46 tipos de salada
25 tipos de doce
14 pratos quentes
500 clientes por dia
3 salões
R$ 25,00 de buffet
Na semana em que se completam 20 anos da assinatura do Tratado de Assunção, que consolidou a criação do Mercosul, o iG convida o leitor a descobrir como paraguaios, uruguaios e argentinos estão saboreando o melhor momento econômico das últimas décadas. Na primeira série de reportagens do projeto Expedições iG, você entenderá como o controle da inflação, a democracia e o crescimento contínuo do Brasil estão mudando a vida de pessoas e empresas dos nossos mais próximos vizinhos.
Veja as principais reportagens da série:
O Brasil cresce e muda a vida de pessoas e empresas do Mercosul
Soja se consolida entre vizinhos e ajuda Mercosul a crescer
Transferência de renda ajuda Mercosul a driblar a crise
| moeda | compra | venda | var. % |
|---|
| indice | data | ultimo | var. % |
|---|