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Em entrevista ao iG, economista-chefe do Goldman Sachs e criador do termo Bric afirma que País ainda precisar reduzir gastos

Jim O´Neill: Indonésia, México, Turquia e Nigéria podem ser novos BRICs
Divulgação
Jim O´Neill: Indonésia, México, Turquia e Nigéria podem ser novos BRICs
O economista inglês Jim O’Neill ganhou notoriedade mundial ao criar, em 2001, o termo Bric (grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China). Mas os interesses dele vão além das projeções macroeconômicas. Economista-chefe do banco norte-americano Goldman Sachs, O’Neill nutre uma paixão especial por futebol – acredita-se que ele faça parte do The Red Knights (Cavaleiros Vermelhos, em tradução livre), um grupo de torcedores ricos e ilustres do Manchester United - que estaria interessado, inclusive, em comprar o clube.

Em entrevista ao iG , Jim O’Neill mostra o seu lado torcedor e fala sobre economia e Copa do Mundo. Em alusão ao fraco desempenho do Brasil na África do Sul, ele dá dicas de como a economia brasileira deve se portar para não fracassar como o time comandado por Dunga. “Como vimos na Copa do Mundo, há sempre uma chance de as coisas não saírem como o planejado”, diz.

Segundo O’Neill, a chave para o avanço econômico do Brasil está nas eleições presidenciais de outubro. “É fundamental que, independentemente de quem ganhe, o novo presidente mantenha o sucesso de atingir as metas para a inflação e tenha a mesma habilidade notável do Lula para se envolver com todos os espectros da sociedade.”

O economista aposta em alguns “azarões”, que podem surpreender o mundo econômico nos próximos anos. Para ele, os próximos “Brics” podem ser Indonésia, México e Turquia. Na África, O’Neill chama atenção para a Nigéria. “O continente africano tem 900 milhões de pessoas. Talvez tivessem uma chance coletivamente.”

Confira a seguir a entrevista de O’Neill ao iG .

iG: O senhor apontava o Brasil como grande favorito para a Copa do Mundo. A eliminação precoce da seleção foi uma surpresa?
Jim O'Neill: Sim, foi uma surpresa. Esperávamos que o Brasil fosse chegar à semifinal. Na realidade, apenas uma das equipes que previmos chegar à semi, a Espanha, chegou! Pelo menos, eles ganharam a competição!

iG: Assim como aconteceu com a Copa, a economia brasileira desponta para muitos como um grande potencial. Existe algum risco de as coisas fora de campo não saírem como o planejado?
O'Neill: Como vimos na Copa do Mundo, há sempre um risco de as coisas não saírem como planejado. Acho que as eleições, daqui a alguns meses, são muito importantes para o Brasil. É fundamental que, independentemente de quem ganhe, o novo presidente mantenha o sucesso de atingir as metas para a inflação e tenha a mesma habilidade notável do Lula para se envolver com todos os espectros da sociedade. É, provavelmente, uma boa ideia para o próximo presidente tentar reduzir os gastos do governo e a participação dos gastos no PIB.

iG: Das quatro seleções que o senhor apostou que fariam as semifinais da Copa (Inglaterra, Argentina, Brasil e Espanha), somente os espanhóis se classificaram. No cenário global, algum país pode surpreender e despontar como potencia econômica, vencendo os “grandes favoritos”?
O'Neill: Seria muito bom ver a África do Sul nos surpreender, após a oportunidade da Copa do Mundo. Quando as pessoas me perguntam sobre os outros países que poderiam se tornar "Bric", digo que há alguns: Indonésia, México, Turquia e, na África, a Nigéria é especialmente interessante. O continente africano tem 900 milhões de pessoas. Talvez, tivessem uma chance coletivamente.

iG: O Brasil foi derrotado pela Holanda, um time com praticamente a metade das chances que os brasileiros tinham de ser campeões. Assim como na Copa, os números da economia podem ser enganosos?
O'Neill: É mais difícil enganar quando se trata de anos e muitos dias. Um jogo de futebol dura apenas 90 minutos. Como vimos, tudo pode acontecer.

iG: Grande parte dos economistas e instituições que projetaram os favoritos para ganhar a Copa erraram as apostas. Para projeções econômicas, as probabilidades de acerto são maiores? Por quê?
O'Neill: As perspectivas econômicas, especialmente no longo prazo, dependem do grau de produtividade e do tamanho da população ativa do país. Os fatores que determinam produtividade são conhecidos, mas envolvem uma série de incertezas. Então, as pessoas devem manter um ceticismo saudável com relação às previsões econômicas. Economia é apenas uma ciência social.

iG: O que a economia do Brasil deve fazer para não ser surpreendida e “cair” antes do esperado?
O'Neill: Cravar um quadro político macroeconômico estável, manter a inflação baixa, reduzir o peso das despesas públicas em relação ao PIB e aumentar a produtividade e a infraestrutura.

iG: No futebol, as grandes potências não são grandes economias. Um dia, nós veremos o Brasil economicamente tão forte quanto dentro de campo?
O'Neill: Como nós escrevemos em nosso livro Copa do Mundo, o Brasil é bastante singular a este respeito. Com a Copa do Mundo e as Olimpíadas chegando nos próximos seis anos, o Brasil tem uma oportunidade fantástica para mostrar tanto a sua economia e como seu futebol.

iG: Entre os americanos, há uma brincadeira de que eles estão se tornando latinos, porque agora jogam futebol e enfrentam crises. O que o senhor acha disso?
O'Neill: Eu não tinha ouvido isso, é engraçado. Eles estão bem ambiciosos, porque ainda não são muito bons no futebol.

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