No volante de um cérebro eletrônico Por Lucas Pretti e Jocelyn Auricchio São Paulo, 05 (AE) - Apostar corrida é quase tão ancestral quanto a humanidade. Ser o homem mais rápido, desde quando vivíamos em tribos até as brincadeiras de quintal de hoje, significa autoridade, poder e fascínio - e mais facilidade para impressionar o sexo oposto.

Com o tempo, o pé descalço ganhou botas, cravos, rodas, ajuda de animais e então motores. A única diferença entre as corridas de bigas na Roma Antiga e a Fórmula 1 de hoje é a tecnologia, compara Felipe Massa. Uma reflexão que pode explicar o resultado da corrida de domingo, em Interlagos, que valeu ao inglês Lewis Hamilton o título da temporada.

"A regra da F-1 hoje é simples: se você não tem o melhor carro, você não vence a corrida, mesmo se for um campeão mundial", disse o piloto brasileiro em entrevista exclusiva antes da prova. Mesmo vencendo a corrida, Massa (Ferrari) perdeu o título para Hamilton (McLaren) pois o carro do inglês não o deixou na mão quando ele precisou, na última volta, ultrapassar o alemão Timo Glock (Toyota).

É mais que um carro - é um "computador".

A competitividade da F-1 atual só é possível de ser mantida com cérebros artificiais capazes de processar muito mais informações e tomar decisões mais rápidas do que uma equipe inteira de engenheiros. Não é à toa que empresas como Intel e AMD, fabricantes de chips, decidiram não só patrocinar como fornecer produtos exclusivos para os paddocks e boxes. O volante da Ferrari de Massa, para se ter idéia, tem mais de 20 botões ao alcance dos dedos, sem contar o câmbio. Isso definitivamente muda a forma de pilotar.

O próprio Massa admite que ele ou Hamilton precisam ser "menos pilotos" do que Ayrton Senna, Niki Lauda ou Juan Manuel Fangio. O que não significa que qualquer um dirija um F-1. "Os carros estão mais simples de pilotar, mas é muito mais complexo gerenciá-los. O esporte pede a união de habilidade e tecnologia", diz. A estratégia se torna ainda mais determinante. Além de velozes, poderosos e fascinantes aos olhos femininos, os pilotos precisam ser inteligentes.

Felipe Massa tem 27 anos, 19 dos quais com um volante nas mãos (começou a carreira aos 8, no kart). Ele faz parte de uma geração de pilotos que viveu a invasão tecnológica dos anos 90 e 2000: a música foi para o bolso, a internet para o celular e o telefone para o computador. Isso faz com que Massa, Hamilton (23 anos), Alonso (27) e Räikkönen (29) travem também uma batalha por informação.O mais conectado pode sair na frente.

O brasileiro é um conhecido fã de videogames. Na preparação para cada Grande Prêmio, decora a seqüência de curvas do circuito com o joystick na mão. Passa então ao simulador da Fiat, em Torino, e depois para o carro de verdade. "Eu jogo PlayStation 3. Joguei muito o Formula 1, mas encheu um pouco o saco. Agora, jogo futebol, o Pro Evolution Soccer. No F1 não tem pra ninguém, mas no futebol é só surra..."
Na internet, Massa navega por sites de notícias de esportes e de Fórmula 1, além de estar sempre conectado para conversar com a família. Ele também bloga (tinyurl.com/blog-massa) e se conecta pelo(s) celular(es): um iPhone no Brasil e um HTC na Europa.

Massa é conhecido também pelas superstições, como a já famosa cueca vermelha que o ajudaria a ganhar. E em saci, você acredita? É uma lenda típica da região de Botucatu, no interior de São Paulo, onde Massa nasceu. "Um amigo chegou a dizer que cria saci. Ele não é louco, para falar a verdade. Eu nunca vi, mas... não duvido."
Voltando às pistas, para o brasileiro é necessário que os pilotos desenvolvam a habilidade normalmente relacionada às crianças de hoje: o multitasking (capacidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo sem perder a concentração em nenhuma). "Todo o gerenciamento da corrida está nos botões do volante. É possível fazer muitas coisas com o carro. E manter a atenção em todas", diz.

Aqui há dois problemas. Tanto o cérebro humano pode falhar, como Massa diz já ter quase ocorrido em Interlagos no ano passado, quando, líder da corrida, ele se desconcentrou olhando para a torcida e por pouco não perdeu a entrada do "S do Senna". Quanto alguns dos milhões de dados podem pegar um caminho errado nas redes de computadores e fazer o carro quebrar. "É frustrante quando há falhas técnicas", diz Massa. "Mas eu confio nos carros assim como os pilotos romanos confiavam nos cavalos. Eles também podiam tropeçar, não podiam?"
A maior diferença de Massa para outros pilotos é a consciência realista sobre o ofício - e a capacidade de rir dos próprios erros. A raça e paixão de pouco tempo atrás se transformaram em profissão. Tanto que, além do carro competitivo, Massa dá argumentos "técnicos" que levariam qualquer um a ser campeão de Fórmula 1: ser rápido, constante e estar no lugar certo na hora certa. E foi Hamilton quem preencheu, ontem, estes requisitos.

ALIADA FUNDAMENTAL - O grande salto competitivo na Fórmula 1 é a vantagem tecnológica. Mesmo o mais habilidoso dos pilotos depende de um carro praticamente perfeito para ganhar o campeonato. Para que isso aconteça, os construtores contam com a mais avançada tecnologia. O próprio volante dos carros é um poderoso computador de bordo, equipado com vários botões que alteram as condições de dirigibilidade com apenas um toque. Cada volante inteligente, como o do carro de Massa, custa por volta de US$ 200 mil.

O desempenho mecânico e aerodinâmico dos carros é constantemente refinado. A Ferrari faz pelo menos três testes diários com os carros, 365 dias por ano. Poderosos servidores equipados com processadores instalados na sede da escuderia, em Maranello, criam ambientes virtuais de alta complexidade que ajudam os engenheiros a prever o comportamento do carro em diferentes condições de clima. É graças a essas simulações que os carros de hoje, mesmo com motores menores que no passado, conseguem gerar a mesma potência gastando menos combustível.

E no futuro, sistemas híbridos, combinando o motor convencional a motores e baterias elétricas, transformarão a força das freadas em mais 100 cavalos de força, que servirão como uma espécie de turbo instantâneo elétrico para os carros.

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