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O mercado financeiro global viveu mais um dia de nervosismo ontem, com reflexos no Brasil, onde o câmbio registrou ainda mais tensão do que no resto do mundo. O dólar subiu 5,09%, e fechou em R$ 2,312, num dia em que a divisa americana teve valorizações bem mais modestas em relação a diversas moedas latino-americanas e asiáticas, e chegou a perder valor ante o euro e outras moedas européias.

Em compensação, num momento raro, o Índice da Bolsa de São Paulo (Ibovespa) caiu menos do que os três principais indicadores do mercado acionário americano. Enquanto o Ibovespa recuou 4,66%, o Índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, a Nasdaq e o S&P 500 tiveram quedas de, respectivamente, 5,11%, 5,80% e 5,74%.

Um operador de câmbio de banco estrangeiro notou que o real se desvalorizou 17,59% em cinco dias úteis, o que o coloca disparado como moeda de pior desempenho entre as principais do mundo, sendo seguido num distante segundo lugar pelo peso mexicano, que perdeu 10% do seu valor no mesmo período. Ele também observa que, em 2008, a diferença entre a máxima e a mínima do real é de 48%, o dobro da média dos emergentes, que é de 24,5%.

Segundo fontes do mercado, a principal explicação para a disparada do dólar no Brasil teria sido a corrida de diversas empresas para comprar dólares no mercado futuro e neutralizar posições vendidas em derivativos que estariam produzindo grandes prejuízos.

Recentemente, a Sadia anunciou perda de R$ 760 milhões, e a Aracruz assumiu uma perda potencial de R$ 1,95 bilhão (que pode aumentar caso o dólar continue subindo) em operações desse tipo. Segundo fontes de mercado, as apostas de empresas na manutenção do real valorizado, que estão causando esses prejuízos, podem ter superado R$ 30 bilhões.

A nova disparada do dólar levou o Banco Central (BC) a fazer duas intervenções ontem. A atuação da autoridade monetária, porém, não impediu que a moeda continuasse a subir.

Os juros no Brasil subiram nessa terça-feira, como reflexo da indisposição financeira global, com os governos dos países ricos continuando de forma descoordenada e caso a caso a montar operações de salvamento dos seus sistemas bancários.

Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o contrato futuro de juros (DI) com vencimento em janeiro de 2010 fechou em 14,86%, ante 14,82% na véspera; e o DI de janeiro de 2012 subiu para 15,25%, de 14,99% no fechamento anterior.

Para Antonio Madeira, economista da MCM Consultores, a expectativa de pressões inflacionárias derivadas de um câmbio mais desvalorizado pode ter sido um dos fatores na alta dos juros. "Há o medo dessa pancada do dólar, que foi de R$ 1,60 para 2,30, na inflação."

A grande queda das bolsas no mercado internacional, ontem, foi atribuída ao medo crescente de uma forte recessão nos países ricos e à tensão com o estrangulamento de crédito e a ameaça sistêmica aos bancos, que estão longe de ser resolvidas.

Apesar da tensão, um diretor de banco brasileiro viu com bons olhos a decisão do Fed (Federal Reserve, banco central americano) de resgatar o mercado de commercial papers e a possibilidade de que baixe a taxa básica de juros. Na Europa, o governo do Reino Unido deve anunciar hoje um pacote de socorro bancário no valor de até £ 50 bilhões, segundo o site da rede BBC. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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