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Nervosismo abre espaço para novas baixas de commodities

SÃO PAULO - Inesquecível para o mercado internacional de commodities agrícolas, pelas fortes oscilações de preços que produziram picos históricos e quedas bruscas, este ano de 2008 chega ao fim com pistas difusas e muitas incertezas sobre o que pode acontecer em 2009. A crise financeira irradiada dos Estados Unidos, e a decorrente desaceleração econômica que já se aprofunda naquele país e em boa parte do planeta, conteve até mesmo o viés otimista que muitas vezes contamina os balanços e perspectivas de fim de ano.

Valor Online |

Num ambiente turvo para apostas, porém, é quase consenso entre analistas que o primeiro trimestre será particularmente nervoso e volátil, com possibilidades de novas quedas de preços de produtos como milho, trigo e soja nas bolsas.

Da mesma forma, vigora a expectativa de que a demanda global por alimentos deverá sofrer menos os rigores das turbulências, oferecendo a essas e outras commodities agrícolas suporte suficiente até para uma posterior recuperação, ainda em 2009 - levando-se em consideração, também, que os problemas de hoje podem reduzir o plantio de grãos no Hemisfério Norte, em meados do ano.

" Nunca houve nada semelhante ao que acontece hoje, e o que aconteceu ontem é história. Por exemplo: se o petróleo começa 2009 abaixo de US$ 40 [o barril, no mercado internacional], os fertilizantes ficam mais baratos e o mundo poderá plantar mais, mesmo com as commodities agrícolas abaixo do nível de preços de hoje " , afirma Antonio Sartori, da corretora gaúcha Brasoja.

Na temporada 2008/09, em fase de colheita no Hemisfério Norte (que concentra mais de 90% da produção mundial de cereais), o plantio foi impulsionado por preços elevados desde o primeiro trimestre de 2008, com novos recordes nos três meses seguintes.

As cotações subiram tanto, com boa ajuda das apostas de fundos de investimentos - que há não muito tempo " fugiam " dos mercados agrícolas -, que nem o aprofundamento da crise financeira e a fuga de grande parte desses novos jogadores foi capaz de tornar 2008 um ano negativo para as cotações das commodities agrícolas - exceto o suco de laranja.

Não por acaso, uma das maiores preocupações mundiais no primeiro semestre foi a galopante inflação dos alimentos, hoje um tema praticamente abandonado pelas perspectivas de que uma escalada como aquela não mais ocorrerá tão cedo em virtude da atual desaceleração econômica.

Graças aos dois primeiros trimestres, e com o terceiro trimestre ainda firme, as cotações médias anuais de milho, trigo e soja bateram recorde em 2008, segundo cálculos do Valor Data baseados nos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) negociados na bolsa de Chicago, principal referência global para o trio de commodities agrícolas mais negociadas no mercado internacional.

Nesse critério, a maior valorização relativa em comparação com 2007 (quando os preços começaram a subir) é a da soja, que até o dia 29 de dezembro alcançou US$ 12,4240 por bushel, alta de 41,55%. A cotação média do milho atingiu US$ 5,4270 por bushel em 2008, salto de 40,62%, enquanto a do trigo subiu 24,62%, para US$ 8,1300 por bushel.

Para se ter uma idéia dos efeitos do recrudescimento da crise financeira americana nesses mercados a partir de meados de setembro, a soja encerra dezembro com cotação média de US$ 8,6334, o milho a US$ 3,7141 e o trigo a US$ 5,4241, sempre segundo cálculos fechados no dia 29 e em baixa na comparação com as médias de novembro.

" Não vejo para a soja uma média superior a US$ 8 por bushel em Chicago em 2009. Um dos desafios globais será não deixar a oferta cair por causa do desestímulo dos preços " , acredita Renato Sayeg, da Tetras Corretora.

Marcantes em 2008, as freqüentes oscilações nesses mercados, com muitas variações diárias entre 5% e 8% (para cima ou para baixo), pouco comuns até o fim de 2006, podem voltar a ser verificadas em 2009, sobretudo nos primeiros meses do ano, que prometem ser mais nervosos.

Mas, como a participação dos grandes fundos de investimentos nas bolsas agrícolas diminuiu e as cotações terminam 2008 mais baixas, ainda que acima das médias históricas, as variações tendem a respeitar uma banda mais estreita, conforme analistas.

Caso a produção americana e do Hemisfério Norte em geral de fato caia em meados de 2009, e a demanda mundial por alimentos se comprove relativamente inelástica, as cotações de milho, soja e trigo - mas também de produtos como açúcar e café - terão espaço para encontrar maior sustentação no segundo semestre.

" É possível, mas qualquer análise depende de indicadores que não são formados nos mercados agrícolas, e as incertezas são grandes. Há previsões muito diferentes para o comportamento do PIB nos Estados Unidos e no mundo em 2009 " , ressalva Sayeg.

Fundamentos agrícolas à parte - os estoques globais de trigo devem crescer, ainda que a quebra da produção argentina seja um fato, enquanto os de soja e milho devem diminuir, mas nem tanto, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) -, Sartori, da Brasoja, acredita que a palavra-chave para esses mercados em 2009 é " energia " .

Quase sempre na contramão do dólar, o petróleo foi referência para todas as commodities em 2008, e sua influência sobre os produtos agrícolas vai perdurar. O petróleo encabeça a carteira de commodities de grandes fundos, e seus preços se refletem nos biocombustíveis, desde o etanol de cana até o biodiesel de soja.

(Fernando Lopes e Mônica Scaramuzzo | Valor Econômico)

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