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O embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Comércio (Unctad), pôs em dúvida a eficácia da solução proposta pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, depois da fracasso da Rodada Doha, que é o País buscar acordos bilaterais. Segundo Ricupero, o Brasil não poderia abrir negociações de forma isolada sem consultar antes os demais integrantes do Mercosul.

Ele diz ainda que uma liberalização agrícola, por meio da abertura de mercados ou redução de subsídios, só deverá sair mesmo no âmbito das negociações multilaterais.

"Nós somos membros de uma união aduaneira imperfeita, coisa que muita gente aqui não aprecia", diz o embaixador. "É uma união aduaneira do tipo que é a União Européia, com a diferença que lá eles têm uma só voz nas negociações e, por mais que a França esperneie, a área de comércio exterior pertence à Comissão Européia, e não aos governos nacionais".

A união aduaneira é muito mais do que o acordo de livre comércio. O acordo de livre comércio, a exemplo do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), significa que os países signatários abrem mão de todas as restrições de comércio entre si, mas cada um deles conserva uma barreira própria em relação ao resto do mundo. Ou seja, eles podem fazer negociações bilaterais com outros países fora do bloco. Isso já não é possível no caso, por exemplo, do Mercosul, pois o Brasil tem que ter a mesma barreira que a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e possivelmente a Venezuela, caso o país passe a fazer parte do grupo.

"Das duas, uma: ou se abole o Mercosul na prática, mesmo que não na teoria, como se ele fosse um acordo de livre comércio, não mais insistindo na barreira comum, ou então nós vamos ter que negociar junto com esses outros países". Essa não é uma tarefa fácil, observa o embaixador, lembrando que "nós já saímos arranhados com alguns deles nas negociações de Doha".

Para Ricupero, que atualmente é diretor da faculdade de Economia da Faap, o País pode até tentar capitalizar a boa vontade que demonstrou nas negociações de Doha para buscar acordos tópicos sobre produtos, como o etanol, a carne e a soja, com a União Européia, os EUA ou a Austrália. Mas, segundo ele, isso vai depender do interesse desses países em negociar acordos que não garantam o acesso ao mercado consumidor da China ou da Índia. Além disso, há o problema com os argentinos, que estão numa fase que eles chamam de reindustrialização e não estão dispostos a reduzir as tarifas industriais tanto quanto o Brasil.

"Por mais que eu compreenda isso que o (chanceler) Celso (Amorim) declarou (que nós vamos ter que nos concentrar em coisas que dão resultados) não acredito numa alternativa satisfatória para o sistema multilateral", afirmou Ricupero. "Eu compreendo que na hora da frustração haja esse tipo de desabafo, mas a liberalização agrícola só vai sair mesmo num âmbito geral."

Segundo ele, o fiasco de Doha não representa um problema de curto prazo. "As negociações só produzem efeito, mesmo quando elas concluem bem, quatro ou cinco anos depois, porque os países precisam aprovar internamente as leis", explicou. "Então, isso não vai alterar em nada o cenário para 2009, mas é um complicador para 2014 ou 2015."

Na opinião do embaixador, o problema no País hoje é câmbio e juros. "Mesmo que o Brasil tivesse conseguido um acordo, isso não ia ter um efeito muito grande e ficaríamos numa situação tão precária quanto estamos hoje por causa da valorização da moeda."Ou seja, se o País concedesse uma redução tarifária como o ministro Celso Amorim estava disposto a aceitar, a redução de barreira tarifária seria turbinada pela valorização do real frente ao dólar. "Teria o efeito adicional de uma moeda que estimula a importação".

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