Com as economias emergentes pressionadas a fazer concessões e liberalizarem suas economias, os representantes dos países na Organização Mundial do Comércio (OMC) entram pela madrugada para tentar salvar a Rodada Doha, sete anos depois de seu lançamento. Enquanto ministros e diplomatas entravam e saíam da sede da entidade no meio da noite, outros eram destacados para avaliar o impacto das novas ofertas nos diferentes setores da economia.

China e Índia ainda mostravam resistência em abrir seus mercados a produtos agrícolas. Já o chanceler Celso Amorim não disfarçava seu mau humor e se recusou a falar sobre o encontro.

"O Brasil precisa entender que não é mais um país em desenvolvimento. É um país competidor, e assim será tratado nas negociações. Por esse motivo é que precisa fazer concessões no setor industrial", alertou o secretário de Desenvolvimento Econômico da Itália, Adolfo Urso.

A Rodada Doha foi lançada em 2001 para tentar corrigir distorções nos mercados internacionais, com a justificativa de provocar desenvolvimento para os países mais pobres. Hoje, se transformou num teste se a comunidade internacional consegue administrar a nova globalização diante do surgimento de novas potências comerciais.

Ontem, sete países foram convocados a trabalhar por um acordo numa reunião de mais de dez horas, em pleno momento de crise. Os países emergentes foram representados pelas principais economias que crescem no mundo: Brasil, Índia e China. Já entre os ricos estavam Estados Unidos, União Européia, Japão e Austrália.

No centro do furacão estava a pressão dos países ricos para que os emergentes abram seus mercados para bens industriais, considerados como um pagamento por uma abertura no setor agrícola. A Fiesp e outros setores industriais nacionais passaram o dia alertando o governo de que não estavam dispostos a amplas concessões.

Mas, na avaliação dos governos desenvolvidos, estaria na hora de os governos das economias de Brasil, China e Índia fazerem concessões como forma de pagar pelo corte de subsídios nos Estados Unidos e ofertas de cotas para bens agrícolas importados pela Europa do Brasil e de outros exportadores.

A Casa Branca havia oferecido limitar os subsídios agrícolas em US$ 15 bilhões ao ano, perto dos US$ 13 bilhões que Brasil e Índia queriam. Como forma de se defender de uma pressão, Amorim e o governo indiano montaram uma estratégia de tentar pressionar os americanos no setor agrícola, elevando o preço de uma abertura de suas economias como pagamento pelo corte de subsídios.

No meio da noite, uma nova proposta foi apresentada para o corte de tarifas industriais do Brasil, liberalizando parte das importações. O embaixador Roberto Azevedo, negociador-chefe do País, admitiu no início da madrugada que novos números estavam sendo discutidos.

Amorim, irritado e visivelmente preocupado, chegou a deixar a OMC por uma hora, antes de retornar em plena madrugada, para a rodada final de negociações, e se recusou a falar. O Itamaraty se apressou a calcular o impacto para diferentes setores. Dois diplomatas foram destacados para avaliar quantas tarifas seriam cortadas.

Outro ponto de debate foi a capacidade dos países emergentes de manter setores inteiros, como automotivos e têxteis, fora de um acordo. Para americanos e europeus, estava fora de questão que um país tivesse o direito de manter fechado um setor industrial.

Já Brasil e Índia defendiam essa opção e Nova Délhi chegou a alertar que não assinaria um acordo que obrigasse uma queda de tarifas de importação em todos os setores. "Não podemos afetar a capacidade de nossos países de se industrializarem", disse o ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath.

"Não vamos esquecer que os países emergentes lutam para poder se industrializar. Muitos não conseguiram no passado por causa das importações." Segundo Amorim, "essa é uma rodada do desenvolvimento".

Para completar, China e Índia resistiam à tentativa de americanos de conseguir que suas economias fossem abertas para alimentos importados. "Manter tarifas sobre produtos agrícolas é um direito de todo país", disse Nath. Os dois mercados são considerados os mais promissores, e a Casa Branca condicionou o corte de subsídios a um maior acesso para os bens agrícolas nesses mercados.

Ainda assim, Nath dizia que estaria avaliando os números perto da 1 hora da manhã. "Estamos refletindo. Estamos tentando reconciliar números." Naquele momento, ele ainda acreditava que haveria chance de avançar no processo. Mas, para o governo japonês, um acordo ainda estava distante.

Momentos antes da reunião que durou mais de dez horas, vários governos avisavam que não fariam novas concessões. "Não há nada mais a ser oferecido no setor agrícola", alertou a secretária de Indústria da França, Anne-Marie Idrac. "Não faremos nova proposta. Essa é a hora de vermos aberturas nos mercados emergentes. O Brasil já não é o mesmo de 2001. Hoje, o País precisa ter responsabilidades e fazer concessões."

Para Nath, porém, a Rodada não seria para os países emergentes darem nada. "Viemos para receber." Sua tese, compartilhada com Amorim, é de que a negociação tem o objetivo de garantir maior desenvolvimento às economias pobres. Para a França, porém, Brasil, Índia e China não podem mais ser. Em plenas negociações, senadores americanos também enviaram uma carta ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, alertando: a Casa Branca sequer tem o mandato para negociar um acordo comercial em Genebra.

A carta, assinada pelos senadores Robert Byrd e Russell Feingold, alerta que apenas o Congresso americano tem o poder de dar um mandato para a Casa Branca negociar acordos comerciais. "O anúncio dessa reunião ministerial é uma surpresa para nós", afirmam na carta.

"Essas negociações de alto nível apenas ocorrem quando se tem uma autorização. A autorização terminou para o seu governo (Bush) em 30 de junho de 2007, e o Congresso se recusou a renová-la. Pior. Não há sequer previsão de nova autorização para o Executivo negociar", afirmaram. "Queremos entender o que a representante de Comércio Susan Schwab está representando", questionaram os senadores. Para os congressistas, qualquer oferta da Casa Branca pode ser questionada e não terá validade.

"Estamos diante de uma crise econômica global e precisamos fechar um acordo", disse Nath. "Mas precisamos garantir a saúde das economias emergentes. Para isso, precisamos manter certas proteções. A Rodada não é para abrir novos mercados para os ricos. Apenas para corrigir os rumos da globalização", completou.

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