Os maiores bancos centrais admitem que o a economia internacional escapou de uma depressão global e a queda livre acabou, o que abre a possibilidade de que algumas das medidas para ajudar bancos comecem a ser retiradas. Mas o trabalho de governos e de bancos para reformar o sistema está longe do fim e os riscos ainda ameaçam a recuperação.

Sem uma reforma, o mundo não voltaria a apresentar uma taxa de crescimento sustentável e a economia patinará por meses. O que seria hoje estabilidade correria o risco de tornar-se uma estagnação nos próximos meses. Reunidos ontem na Basileia, os BCs também concluíram que as economias emergentes crescerão a um ritmo mais acelerado que os países ricos nos próximos anos.

Pela primeira vez desde a pior crise em 70 anos, os BCs falam da possibilidade de que medidas usadas no sistema financeiro comecem a ser retiradas de forma "gradual e ordenada" para que a estabilidade de preços seja garantida. O recado não é para haver um fim imediato da ajuda nem que os pacotes sejam eliminados. No fim de semana, o G-20 deixou claro que não está ainda na hora de ver o fim desses programas e parte da recuperação apenas estava ocorrendo graças ao apoio estatal e juros baixos.

Mas a declaração do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, é a primeira insinuação clara de que o setor financeiro pode não ser mais dependente da ajuda. "Para os governos que embarcaram em medidas não convencionais, podemos pensar numa gradual retirada de instrumentos excepcionais. Obviamente, isso vai ter de acontecer no momento certo, dependendo da circunstância de cada economia e dos desafios de cada país", disse Trichet.

As estimativas apontam que o mundo gastou US$ 10 trilhões em injeções de capital aos bancos. Só os bancos teriam recebido uma ajuda total de US$ 500 bilhões. Em Frankfurt, o BCE já acenou com a revisão de alguns programas de injeção de capitais aos bancos, enquanto Noruega e Austrália já começaram a elevar as taxas de juros.

Apesar das notícias positivas, os bancos garantem que os riscos ainda existem, as instituições financeiras precisam ser reformadas e não há nenhum espaço para "complacência". Enfim, que o otimismo da mensagem não deve se confundir com o fim completo da crise.

O encontro dos maiores BCs ocorreu na Basileia entre domingo e ontem, e foi a última reunião do ano entre os responsáveis pelas políticas monetárias no mundo. Entre os participantes estavam o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles.

EMERGENTES
Sobre os mercados emergentes, o presidente do BCE indicou que estão saindo da crise com uma taxa de crescimento superior à dos países ricos. Esse fenômeno deve ser mantido nos próximos trimestre.

"Tivemos na realidade dois anos muito difíceis. No primeiro, tivemos uma turbulência nos países ricos e uma resistência nos emergentes. Quando a crise se intensificou, vimos que todas as economias foram fortemente afetadas. Isso durou cerca de seis meses e de fato o impacto foi profundo em todos", disse Trichet, em resposta ao Estado. "Está claro que os emergentes vão crescer em ritmo muito maior que a média das economias ricas." Sua avaliação é de que os países emergentes entrarão em um processo para recuperar a diferença histórica entre suas economias e a dos países industrializados.

Entre os bancos centrais latino-americanos, a perspectiva é de crescimento. Mas também existe o risco de estagnação. "A queda livre das economias terminou. Mas o desafio agora é voltar a ter um crescimento sustentável", afirmou ao Estado o presidente do BC argentino, Martin Redrado. Segundo ele, a América do Sul deve crescer 3% em 2010. Para o Brasil, a estimativa é de 4,5%.

RISCOS
Os BCs insistem que, apesar do "fim da queda livre", nada supõe que o mundo tenha decretado o fim da crise. "Não há espaço para sermos complacentes agora. Evitamos, graças às nossas medidas, uma depressão e estabilizamos a situação", afirmou Trichet. "Mas temos um grande número de assuntos a resolver ainda e estamos convencidos de que os riscos são muitos e significativos."
Entre os problemas considerados está a alta no desemprego, principalmente nos países desenvolvidos. Nos EUA, a taxa é a maior em mais de duas décadas. Na Europa, a maior em pelo menos dez anos.

Outro ponto considerado foi o desequilíbrio fiscal entre os países e as dívidas acumuladas pelos pacotes de ajuda. Os BCs querem que o tema receba um tratamento adequado, enquanto analistas dizem que esse fator pode fazer explodir a próxima crise. Já em relação aos bancos, os BCs são claros: as reformas das instituições financeiras não foram completadas ainda - mesmo com os lucros que já se registram - e isso pode ser um sério obstáculo para a volta do crescimento." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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