SÃO PAULO - A grave crise política na Bolívia alcançou ontem um novo ponto de tensão logo depois que o presidente Evo Morales ordenou a expulsão do embaixador dos Estados Unidos por conspirar contra a democracia e buscar a divisão da Bolívia. O anúncio se deu no mesmo dia marcado por choques nas regiões opositoras ao governo boliviano e ataques contra as instalações energéticas, que colocaram em risco as exportações de gás ao Brasil e à Argentina.

Sem medo do império, declaro o senhor [embaixador dos Estados Unidos Philip] Goldberg persona non grata. Peço a nosso chanceler da república enviar ao embaixador [uma mensagem] fazendo conhecer a decisão do governo nacional, de seu presidente, para que urgentemente retorne a seu país, anunciou Morales em ato público no Palacio Quemado, sede do governo.

Antes de receber os aplausos dos presentes no evento, o dirigente boliviano sustentou não querer pessoas separatistas e aqueles que conspiram contra a unidade do país. Não queremos pessoas que atentem contra a democracia, afirmou.

Assim como em outras ocasiões, Goldberg foi acusado de laços com setores da oposição, que recusam o projeto constitucional que o governo pretende aprovar em referendo. No fim de agosto, a chancelaria boliviana já tinha protestado por causa da reunião pública entre Goldberg e o prefeito da região de Santa Cruz, Rubén Costas, da oposição.

O agravamento da crise se deu no mesmo dia que a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) denunciou um atentado terrorista feito por grupos paramilitares e fascistas contra um gasoduto, que provocou uma redução de 10% das exportações para o Brasil.

A perda em exportações significa, economicamente, a perda de mais de US$ 8 milhões por dia, destacou o presidente da empresa boliviana, Santos Ramírez.

Durante conversa com a imprensa ontem, ele informou que o ataque ocasionou uma diminuição no fluxo de gás ao Brasil de mais de 3 milhões de metros cúbicos. A Bolívia produz ao redor de 40 milhões de metros cúbicos diários de gás, dos quais 6 milhões a 7 milhões ficam no mercado interno, cerca de 30 milhões são destinados ao Brasil e o restante cabe à Argentina.

O ataque foi o último incidente grave na escalada que levou opositores a Morales a invadir mais de 20 edifícios públicos ontem e anteontem nas regiões de Santa Cruz e Tarija, principalmente, e também nas áreas de Beni, Pando e Sucre. Todas são ricas em recursos energéticos e contrárias às políticas do presidente boliviano.

Os ataques a instalações petrolíferas foram registrados no marco de uma onda de fortes protestos da oposição em cinco dos nove departamentos da Bolívia que recusam a nova Constituição e querem a devolução dos ingressos dos tributos petrolíferos que o Executivo reteve para pagar um bônus às pessoas acima de 60 anos.

(Juliana Cardoso | Valor Online, com agências internacionais)

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