No início da década, Santa Catarina batalhou para abrigar em seu território grandes montadoras nacionais. Não estar entre os Estados escolhidos frustrou os empresários catarinenses e acabou sendo o estopim de um projeto ambicioso: sem as gigantes, eles resolveram criar sua própria montadora.

No início da década, Santa Catarina batalhou para abrigar em seu território grandes montadoras nacionais. Não estar entre os Estados escolhidos frustrou os empresários catarinenses e acabou sendo o estopim de um projeto ambicioso: sem as gigantes, eles resolveram criar sua própria montadora. Foram sete anos de idas e vindas, anúncios de lançamento e prazos adiados até que os primeiros veículos deixassem a fábrica, há cinco meses. Hoje, 38 jipes Stark circulam pelas ruas de cidades brasileiras. O de chassi número 50 deve ser fabricado ainda este mês pelos 35 operários. O ritmo de produção, de três jipes por semana, é surpreendentemente baixo se comparado ao de grande montadoras. A Volkswagen, por exemplo, faz 3 mil carros por dia. Mas o investimento da TAC (Tecnologia Automotiva Catarinense) foi mesmo todo dimensionado para a produção não passar de 500 unidades por mês. "Queremos trabalhar sempre em escala reduzida para oferecermos um produto de desejo", afirma Adolfo Cesar dos Santos, presidente da TAC. Quem desejar o simpático jipinho Stark, vendido apenas sob encomenda, precisa desembolsar R$ 98,7 mil e esperar 40 dias para receber o veículo. Além de manter um preço "premium", a montadora lançou mão de outras estratégias para tornar o Stark viável, como a parceria com mais de 90 fornecedores que adaptaram peças já existentes no mercado para compor o novo jipe. "Chegamos ao conceito de montadora pura. Tudo é comprado de fornecedores que têm tecnologia e meios de produção próprios." Só dois componentes, as caixas de transferência e de direção, são importados. Outro detalhe que Santos destaca como uma vantagem do projeto foi o uso da tecnologia no desenvolvimento do veículo. Antes mesmo de criada a empresa, o carro foi projetado em três dimensões e testado virtualmente, o que permitiu mais tarde uma comunicação padrão com os fornecedores. Exportações. Para desenvolver o Stark, os empresários catarinenses investiram ao todo R$ 20 milhões. Se as vendas seguirem as expectativas, o retorno integral deve ser alcançado em dois anos. Antes disso, a montadora já faz planos de exportar pelo menos duas peças ao ano para a Europa, com o apoio de um dos acionistas. Na saga do Stark, a capitalização foi um dos primeiros grandes desafios da empresa. Era difícil vender uma ideia projetada na tela do computador. "A análise virtual não trazia o espetáculo de uma oficina, com barulho e montagem de carro." A TAC começou com o capital de cinco sócios em torno de uma sociedade anônima. Hoje são 95 acionistas, dois deles espanhóis - "Naturalizados brasileiros", ressalta Santos, ao garantir que o investimento é "100% nacional". Na primeira apresentação ao mercado, o jipe foi vendido como o primeiro fora de estrada flex do mercado. E foi justamente a substituição por um motor diesel que atrasou sua chegada. A TAC acabou fechando um contrato com a Fiat e teve de esperar o lançamento do motor para seguir com o projeto. "Foi um momento de muita coragem, em que tivemos de enfrentar o descrédito de todo mundo." Até hoje, na verdade, o projeto catarinense não é uma unanimidade. Sem produção em escala, especialistas do setor automotivo dizem que é impossível sobreviver. "O mercado não é tão leal quanto essas pessoas pensam", diz Luiz Carlos Mello, diretor do Centro de Estudos Automotivos (CEA). "Os clientes não vão comprar só porque é um nicho, é exclusivo. Eles querem retorno em serviço e atendimento em todo o território nacional." O presidente da TAC garante não estar preocupado com a concorrência porque quem compra um Stark já tem um ou mais de um automóvel na garagem. "Somos um carro de competição disfarçado de carro de rua", diz. Sendo assim, ele se aproxima muito de um outro jipe nacional, o cearense Troller T4, vendido para a Ford em 2007. Sem pretensões de competir com as gigantes, o discurso do Santos está mais para mercado de luxo do que para a indústria automobilística. Ele diz que não vende carros, vende "um estilo de vida".

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