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A crise não acabou, alerta Norman Gall, fundador e diretor executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, associado à Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Segundo ele, existe excesso de entusiasmo em relação ao fato de o Brasil ter saído da crise.

"Tem muito oba-oba no Brasil de hoje, que vai crescer 8% no trimestre", disse. "Isso é um veneno. O Brasil não pode crescer 8% enquanto o mundo cresce 1%. Isso não se sustenta." Segundo Gall, é preciso cautela, pois a economia mundial está em desequilíbrio e levará um tempo ainda para que esse desequilíbrio seja remediado.

Gall lançou ontem, no Centro de Convenções da Faap, em São Paulo, seu livro Terremoto financeiro, a primeira crise global do século XXI (editora Elsevier Campus, 192 páginas). No livro, ele analisa o que levou à eclosão da crise financeira internacional, como o excesso de ativos financeiro sem lastro. Também sugere caminhos para que a economia global volte à estabilidade. "Os governos devem começar a organizar a questão fiscal em meses, não em anos. Eles não têm mais munição fiscal para enfrentar outra crise."
De nacionalidade americana, Gall vive no Brasil desde a década de 1970, quando veio pesquisar, a convite de um grupo de universidades americanas, os motivos pelos quais "o Brasil estava se tornando importante". Fincou raízes no País e naturalizou-se brasileiro. Ao país que o acolheu, ele adverte: "O Brasil não vai dar certo se não investir em infraestrutura e educação."
O embaixador Rubens Ricupero, que assina comentários no livro, também manifestou preocupação em relação ao desempenho da economia brasileira no pós-crise. "O que mais me preocupa são os macrodesequilíbrios da economia mundial. Há um gigantesco desequilíbrio entre as nações deficitárias em conta corrente, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, e as nações superavitárias, como Japão e China", disse.

Nesse contexto, o embaixador alerta para o que chama de "vício da autocomplacência". "Estamos semeando problemas futuros. Por exemplo, os gastos correntes estão crescendo mais que a economia, enquanto há um encolhimento do superávit primário", disse o Ricupero. Ele acredita que a economia brasileira crescerá entre 4% e 5% em 2010.

O livro de Gall tem prefácio do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que também faz parte do instituto, além de comentários de Ricupero, do ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega e do economista americano Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia (Berkeley).

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