O Ministério do Meio Ambiente é contra a construção de usinas nucleares, mas foi voto vencido dentro do governo e, por isso, considera a decisão um assunto superado. Mas o ministro Carlos Minc disse ontem que o licenciamento da usina nuclear de Angra 3 vai exigir compensações ambientais e monitoramento independente para os níveis de radiação.

Minc lembrou que a posição dele, contrária à energia nuclear, é a mesma de sua antecessora na pasta, Marina Silva (PT-AC). "Foi uma decisão de governo" enfatizou. Na véspera, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, dissera que o início da construção de Angra 3 tem data marcada: 1º de setembro.

Sobre as exigências do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o licenciamento de Angra 3, Minc afirmou: "Vamos acrescentar vários pontos nessa licença ambiental. Queremos um prazo para resolver o problema dos rejeitos, o lixo nuclear", disse.

Uma terceira medida em estudo é a obrigatoriedade de monitoramento externo e independente para os níveis de radiação. "Teremos sensores em terra, mar e ar e quem vai operar isso será uma universidade ou fundação independente, como já é feito na Espanha", explicou.

Para o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, não há risco de atrasos, por eventuais novas exigências ambientais, no cronograma de início das obras de construção da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro, nem das usinas hidrelétricas Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia.

"Essas exigências não vão contra o prazo, e me parecem razoáveis. Não pretendemos trabalhar com a idéia de atraso no reinício da construção de Angra 3", disse. "O ministro Minc tem participado de reuniões sobre esse assunto, e o governo inteiro tem consciência de que deve começar a construção no dia 1º de setembro."

Apesar da resignação de Minc, a alternativa nuclear é vista com reservas por ambientalistas e acadêmicos. "Angra 3 é uma sinfonia inacabada", diz o físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

"A verdade é que todo mundo está cansado de ouvir falar dessa usina. Seria um alívio se fosse concluída", desabafou. Segundo ele, o alto custo de manutenção da usina parada, estimado em R$ 20 milhões por ano, é um argumento favorável para sua retomada. "O que não é bom é a retomada do programa nuclear", disse, sobre o projeto do governo de produzir 60 mil megawatts (MW) de energia nuclear até 2050. "Não faz sentido. Custa quase o dobro da energia hidrelétrica."

Segundo o professor, o custo do para produzir um MW/h de energia nuclear está em torno de R$ 170, enquanto a energia produzida nas hidrelétricas está cotada em torno de R$ 70 o MW/h. "Para gerar 60 mil MW até 2050, como o governo pretende, seria melhor construir mais hidrelétricas na Amazônia, apesar das controvérsias, e implementar parques eólicos em grande escala", disse.

O Greenpeace também se posicionou contrário à retomada do parque nuclear brasileiro. "A retomada da construção de Angra 3 é inconstitucional, pois não passou pelo Congresso Nacional", afirma Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia do Greenpeace. A ONG já entrou com três ações na Justiça pedindo o cancelamento do projeto - todas correm sem previsão de julgamento. "O argumento é que o projeto de Angra 3 é anterior à Constituição de 1988."

Estudo do Greenpeace aponta que o investimento em Angra 3, estimado em R$ 7,3 bilhões, deve custar mais aos cofres públicos, por causa de atrasos na construção. As informações são do O Estado de S. Paulo

*C/ Leonardo Goy

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