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Em entrevista ao iG, presidente da BM&FBovespa conta os bastidores do acordo com o CME Group, o maior grupo de Bolsas do mundo

Cada dia mais, a atividade das Bolsas de Valores depende de tecnologia. Foi esse sentimento que motivou a Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBovespa) a fechar o acordo com o CME Group, em fevereiro. “Nós não dependemos só de tecnologia, mas de tecnologia de ponta, do estado da arte”, afirma Edemir Pinto, diretor-presidente da BM&FBovespa. O acordo, que representa um aporte de US$ 1 bilhão da Bolsa brasileira na empresa que detém a Bolsa de Chicago, estipulou uma participação de capital recíproca de 5%.

A decisão da Bolsa brasileira em buscar um parceiro com tecnologia de ponta foi tomada em junho do ano passado. Foi montada uma equipe de estudos, contratada uma consultoria e realizadas diversas visitas às Bolsas ao redor do mundo. “Chegamos a três companhias consideradas candidatas para fornecer alta tecnologia”, conta Edemir, em entrevista ao iG ,

Edemir Pinto, diretor-presidente da Bolsa, afirma que CME pensou no longo prazo
Divulgação
Edemir Pinto, diretor-presidente da Bolsa, afirma que CME pensou no longo prazo
As três eram as americanas Bats Exchange, Nasdaq e CME Group. A Bats foi a primeira a ser descartada, por ser concentrada apenas no mercado secundário norte-americano de ações. “Ela não tem tecnologia, nem clearing”, diz o executivo da Bolsa, em referência à câmara de liquidação das operações. Ficaram no páreo Nasdaq e CME.

A Nasdaq tinha a vantagem de fornecer tecnologia para mais de 70 empresas no mundo. Das suas receitas, as operações com ações representam 30%, enquanto a venda de sinal e tecnologia responde pelo restante. A própria Bovespa usa o sistema Mega Bolsa, fornecido pela Nasdaq. Já o CME não fornece tecnologia de forma comercial para terceiros, mas tem alguns acordos operacionais.

“Não queríamos mais comprar tecnologia. Avaliamos os dois sistemas, capacidade, velocidade, flexibilidade de integração e desenvolvimento de novos produtos. Ambas empataram”, lembra o diretor-presidente da Bolsa. “Propusemos adquirir a propriedade intelectual do sistema e as duas afirmaram nunca ter feito nada igual. Cada uma fez sua proposta e ambas eram muito parecidas”, conta.

Plano de longo prazo

As duas propostas variavam entre US$ 180 milhões e US$ 200 milhões. A Nasdaq sugeria um acordo para transferência de tecnologia com 36 meses para implementação. O CME fazia o mesmo em 24 meses. “Propusemos para elas um acordo de longo prazo, por dez anos, e elas toparam.” A Nasdaq se comprometeu a comprar 10% do capital da BM&FBovespa, participar do conselho de administração e desenvolver produtos e mercados globais conjuntamente.

“O CME balançou. Pensou grande. A proposta deles foi fazer uma parceria estratégica global preferencial, que não existia no mundo”, afirma Edemir. O acordo permite às duas Bolsas, por meio do corpo de executivos que se reúne a cada três meses, identificar possibilidades de negócios no mundo em igualdade de condições. Se ambas acharem conveniente, entram na operação com participações iguais.

Como resultado, a BM&FBovespa e o CME vão desenvolver uma plataforma nova de negociações de ações com investimentos de US$ 175 milhões em dez anos, o que pelos cálculos de Edemir representam US$ 100 milhões em valores presentes. “Isso foi um divisor de águas, somado à parceria estratégica global.” Com a nova plataforma, diz ele, a Bolsa brasileira e seu parceiro podem atender a qualquer Bolsa no mundo.

O contrato fechado com o CME reza que o acordo vale por 15 anos e não 10 como pensado inicialmente. A cada cinco anos, o acordo será revisto. As duas Bolsas têm um representante da parceira em seu conselho, além da participação acionária recíproca. E a nova plataforma eletrônica deverá processar cada operação em um prazo menor que um milissegundo.

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