Indefinição do preço do barril a ser cedido pelo governo à estatal e prazo da operação geram preocupação de investidores

As ações da Petrobras sofreram nesta quinta-feira diante das incertezas quanto ao processo de  capitalização. As dúvidas sobre a definição do preço do barril de petróleo da cessão onerosa e a possibilidade de adiamento da operação desagradaram analistas ouvidos pelo iG , que veem agora uma situação desfavorável para os acionistas minoritários da estatal.

Os papéis preferenciais tiveram queda de 2,89% e as ações ordinárias recuaram 3,65% no fechamento do dia no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Foram as principais quedas do índice que mede as ações mais negociadas. O Ibovespa caiu 1,1%.

Para os analistas, a tendência é que a pressão de baixa sobre os papéis continue. Alvo de questionamentos dos analistas, o preço de cada barril das reservas que a União vai repassar à Petrobras no processo de capitalização ficou acima do esperado. Na operação, a empresa poderá “comprar” do governo até 5 bilhões de barris de petróleo.

Esse valor por barril, segundo reportagem do "O Estado de S.Paulo", teria ficado entre US$ 10 (cerca de R$ 17,5) e US$ 12 (R$ 21) de acordo com avaliação da certificadora Gaffney, Cline & Associates (GCA), contratada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Os analistas esperavam um valor próximo a US$ 6 por barril.

Minoritários

Com um valor maior, o medo dos investidores é que a participação dos minoritário seja ainda mais diluída. Na operação, a entrada da União num primeiro momento ocorrerá com a troca dos barris, e não com ingresso de dinheiro. A fatia do governo no capital da empresa é de um terço do total, suficiente para manter o controle da Petrobras.

Supondo que o preço do barril fique em US$ 10 e a Petrobras decida comprar todos os 5 bilhões de barris do governo, a parte de troca entre governo e empresa, que seria em teoria correspondente aos 33% de participação, fica em US$ 50 bilhões. Os dois terços restantes corresponderiam a uma oferta de mais US$ 100 bilhões.

Se o preço fosse menor, a oferta para os dois terços restantes poderia ser menor. Com o valor maior, os minoritários precisam colocar mais dinheiro para manter sua participação. Para os especialistas, uma oferta cada vez maior diminui a disposição dos investidores menores de acompanhar a operação, e eles acabam ficando com uma participação reduzida.

“Tecnicamente, a interpretação pode ser de que o valor mais alto do barril indica que as áreas de petróleo analisadas são muito boas. Mas a grande questão acaba recaindo sobre o aumento da capitalização, que exigirá muito mais do minoritário”, diz Mônica Araújo, estrategista-chefe da Ativa Corretora.

Ricardo Almeida, professor do Insper, diz que, mesmo se a Petrobras optar por usar apenas metade dos barris, ainda há risco de diluição, mas dessa vez em duas fases. “O pré-sal é composto de etapas”, diz. “Se, mais para a frente, a Petrobras precisar de novos recursos para bancar o projeto, pode voltar a recorrer à União, comprar os barris restantes, e o minoritário será novamente diluído.”

Um analista que preferiu não ser identificado lembra que essa situação pode comprometer a própria captação financeira da empresa. Isso porque a entrada da União será feita em troca de barris, não em dinheiro, e não contribui para engordar o caixa da estatal. Se for muito grande e os minoritários não conseguirem acompanhar a oferta, diminuem as chances de captação de dinheiro pela empresa.

Adiamento da operação

Outro risco que entrou no radar dos investidores nesta quinta-feira foi a possibilidade de adiamento da operação para o ano que vem, em função dessa discordância de preços do barril. “Esse adiamento vai segurar cada vez mais o preço da ação”, diz Almeida, do Insper.

Entre os fatores de pressão estão a própria demora na entrada de recursos no caixa. Para fazer frente ao pré-sal, a empresa está buscando recursos com urgência.

A capitalização será feita justamente para trazer essa folga de caixa. “Quanto mais demora a capitalização, mais desconfortável fica a situação de caixa da Petrobras”, diz Mônica Araújo, da Ativa. Se demora a ocorrer, a empresa se endivida cada vez mais, o custo de seu endividamento sobe e os investidores começam a descontar essa nova situação em seus papéis.

Outra reação negativa da demora é a própria expectativa já embutida com relação ao preço do papel na oferta de ações, e que segura a cotação há pelo menos um ano, quando saiu a primeira notícia sobre a capitalização. À espera da operação, os investidores simplesmente vendem as ações, ou não negociam as que possuem. A tática é puxar o preço para baixo, a fim de comprar os papéis por um valor mais em conta na oferta. Quanto mais demorar a operação, mais os papéis ficam sem negociar.

“Isso pode até diminuir a representatividade de Petrobras no Ibovespa”, afirma o professor do Insper. Entre os efeitos negativos dessa situação está uma diminuição ainda maior de transações. “Muitos fundos que compram um percentual de Petrobras para replicar o Ibovespa já não precisarão mais comprar tantos papéis, pois essa fatia ficou menor.”

Fila de novas ofertas

O adiamento da operação da Petrobras também terá efeitos nos demais lançamentos de ações previstos para a Bovespa. Segundo analistas, várias ofertas estão em fila, esperando que os investidores gastem seus recursos com a estatal para depois se posicionar em outros papéis. A demora da empresa pode ter dois efeitos contrários. Para alguns analistas, fará com que algumas empresas decidam adiantar suas operações, se livrando assim da sombra da oferta da Petrobras.

Mas há quem acredite que o adiamento só empurrará a fila para a frente. “Essa situação trava toda a fila de espera de IPOs (ofertas iniciais). Ninguém quer sair ao mercado. Todos sabem que muitos investidores não vão tirar dinheiro do bolso, pois o estão guardando para a Petrobras”, diz uma outra analista que preferiu não ser identificada.

Almeida, do Insper, cita mais um fator como trava para o andamento das ofertas. “Muitos bancos de investimento estão com suas equipes paradas, à espera da Petrobras”, diz. “Com isso, não abrem espaço ou dão atenção às outras companhias.”

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