Atuação do governo para tentar evitar uma valorização ainda maior do real contribui para acumulação de capital

O sucesso da maior capitalização do mundo, a oferta de ações da Petrobras, contribuirá para que as reservas internacionais atinjam brevemente a cifra dos US$ 300 bilhões, elevando a posição do Brasil na classificação mundial de detentores de moedas estrangeiras.

O relatório do Banco Central (BC) mostra que as reservas internacionais do Brasil subiram nada menos que US$ 12 bilhões em setembro, para US$ 273,8 bilhões na segunda-feira, o dado mais recente disponível.

“Acredito que as reservas cheguem em breve a US$ 300 bilhões”, diz Cristiano Souza, economista do grupo Santander Brasil. Quando atingir esse patamar, a reserva internacional brasileira será a sétima maior do mundo, atrás de China (US$ 2,4 trilhões), Japão (US$ 1 trilhão), Zona do Euro (US$ 715 bilhões), Rússia (US$ 461 bilhões), Arábia Saudita (US$ 410 bilhões) e Taiwan (US$ 372 bilhões). O Brasil superaria a Índia (US$ 287 bilhões) e Coreia do Sul (US$ 286 bilhões).

A acumulação de reservas está relacionada à entrada de capital estrangeiro para a compra de ações da Petrobras. “O BC prometeu comprar esses recursos adicionais”, diz Souza, do Santander.

Economistas dizem que, apesar de a liquidação da oferta estar marcada para esta quarta-feira, o mercado já vinha registrando ingresso de dólares acima da média nas últimas duas semanas.

“Muitos investidores entraram antes no Brasil em investimentos de renda fixa, para depois trocar pelas ações da Petrobras”, diz Arthur Carvalho, economista-chefe da Ativa Corretora. Em suas contas, US$ 10 bilhões adicionais relativos à Petrobras vão para a conta de capital do País. O volume representa um excedente de 20% em relação à conta do mês.

O economista conta que, para fazer frente a essa entrada de peso, o governo atuou fortemente para tentar diluir esse efeito. “O volume de compras de reservas internacionais do BC subiu absurdamente nas últimas semanas”, diz Carvalho.

Efeito no câmbio

Tanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, quanto o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, vêm dando declarações reiteradas na imprensa de que o governo agirá para conter uma alta ainda maior do real. Segundo o colunista do iG Guilherme Barros, a próxima cartada deve ser a elevação do IOF sobre capital estrangeiro após as eleições. Hoje, o IOF é de 2% sobre os investimentos que entram no país, e a intenção é dobrá-la.

Com essa atuação do governo, os economistas acreditam que o encerramento da capitalização da Petrobras não deve ter grandes efeitos na cotação do dólar até o fim deste ano. Por ter sido a maior chamada de capital da história, a operação fez com que muitos economistas traçassem cenários “antes de Petrobras e depois de Petrobras” para o câmbio em 2010. Muitos acreditavam em queda mais forte do dólar no momento de entrada dos recursos da oferta, e alta mais significativa após a enxurrada de novos recursos.

Mas a atuação do governo federal diminuiu os efeitos da entrada de dólares da operação, e as perspectivas tanto para a economia global quanto para o mercado de capitais estão fazendo com que os especialistas prevejam um cenário mais estável para o câmbio até dezembro. Já há, por exemplo, quem espere dólar a R$ 1,70 para o fim do ano, ou seja, a mesma cotação do momento. Nesta terça-feira, a moeda norte-americana fechou em queda de 0,06% sobre o real, cotada em R$ 1,7094 para venda.

Sem espaço para muita mudança

Apesar da luta do governo para evitar uma alta ainda maior do real sobre o dólar, os economistas dizem não ver muito espaço para desvalorização da moeda brasileira até dezembro. Pesquisa mensal da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgada em meados de setembro já indicava uma tendência de queda nas projeções para o final do ano, de R$ 1,80 para R$ 1,78, mas algumas casas já estão prevendo menos.

O Santander projeta R$ 1,80, mas o Banco Fator já trabalha com uma faixa entre R$ 1,70 e R$ 1,75, e a Ativa Corretora espera R$ 1,70. Souza, do Santander, diz que os Bancos Centrais do mundo estão elevando a liquidez dos mercados, o que ajuda o capital a circular. Além disso, ele lembra que o dólar vem perdendo força não apenas em relação ao real, mas também sobre outras moedas, como o euro.

E esse cenário desfavorável em relação à moeda norte-americana ainda encontra um Brasil com boas expectativas de crescimento e que oferece retorno acima da média. Vale lembrar que a taxa nacional de juros, a Selic, ainda é uma das maiores do mundo, a 10,75%. “Há um apetite enorme por ativos do Brasil”, diz Carvalho. “Não acredito que essa situação mude no curto prazo.”

A melhoria do mercado de capitais local também entra nessa conta. José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, ressalta que o fim da capitalização da Petrobras abrirá espaço para a emissão de ações de empresas que estão na fila da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os estrangeiros têm levado cerca de 70% dos lançamentos iniciais de ações em Bolsa.

Outro fator de entrada de dólares será o aumento da dívida das empresas. Com o mercado internacional se recuperando da crise, as companhias encontram empréstimos de prazo mais longo e custo mais baixo, e acabam desengavetando projetos.

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