Proibição de operações adotadas pela Alemanha e avaliadas pela União Europeia não resolvem a sucessiva onda de deficits públicos

As restrições às negociações com alguns ativos adotadas pela Alemanha nesta semana e que podem vir a ser norma em toda a zona do euro são vistas como paliativas pelo mercado e não como solução para os deficits. Por isso têm abalado a confiança dos investidores e elevado a aversão ao risco, ou seja, a fuga para ativos mais seguros, como os títulos do Tesouro Americano. A opinião é de economistas especializados em mercados financeiros e internacionais.

“Os países estão atacando as conseqüências e não as causas da crise na Europa. Estão dando uma satisfação ao público ao invés de ter competência para atacar a origem do problema”, avalia o economista Roberto Teixeira da Costa, o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado financeiro brasileiro. “Quando se está diante de uma crise como essa, procura-se um bode expiatório.”

Desempenho das Bolsas ontem

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O bode expiatório seriam as proibições impostas pelo órgão regulador do mercado financeiro alemão, a BaFin, na quarta-feira, dia 19. A Alemanha proibiu até março do ano que vem as vendas a descoberto de títulos soberanos dos países europeus, os negócios envolvendo credit swap default sobre esses títulos (derivativo que representa uma espécie de seguro quanto à capacidade de pagamento dos papéis pelas nações), além das transações com ações de algumas instituições financeiras alemãs.

A atitude da Alemanha semeou incertezas pelos mercados ao redor do mundo, provocando baixas generalizadas nas Bolsas de Valores. Como se não bastasse, na quinta-feira surgiu a notícia de que a Comissão Europeia pediu ao Comitê Europeu de Reguladores das Bolsas de Valores para avaliar se as restrições alemãs não deveriam ser seguidas por todos os membros da União Europeia, como forma de barrar a especulação com os títulos de dívida soberana dos países da zona do euro. Novo pânico. As Bolsas voltaram a cair. A Bovespa recuou 2,5%. Na Europa, as quedas também ficaram acima de 2%. Nos EUA, caíram mais que no Brasil.

Nada de ataque especulativo

“Essa restrição é uma forma de tentar resolver a crise com paliativos, achando que há um ataque especulativo contra a Europa e não que os fundamentos das economias é que estão ruins”, complementa o professor José Luiz Rossi, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo. Para Rossi, as medidas recentes são apenas uma forma de ganhar tempo enquanto os governos buscam soluções definitivas.

O economista João Pedro Ribeiro, da Tendências Consultoria, avalia que os mercados acionários não reagiram mal apenas pelo fato de a Alemanha ter tomado atitudes de forma desunida, mas pelo teor das medidas em si. “A restrição reduz a liquidez em um mercado de bônus soberanos que já está sem liquidez. É uma mudança de regra inesperada, em um momento turbulento, que abre precedentes para novas medidas”, afirma.

Para Ribeiro, as restrições se justificam, porque negociações de venda a descoberto (quando se aposta na queda da cotação dos papéis para recomprá-los mais barato no futuro) são alavancadas e podem potencializar a baixa no preço de um ativo que já está caindo.

Erros do passado

Na opinião de Teixeira da Costa, o mercado cometeu erros no passado, com a especulação com títulos de dívida hipotecária, e acabou pagando o preço para corrigir as distorções geradas pelos bancos – o fomento de toda a crise financeira internacional, que culminou com a quebra do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008. “Isso tudo teve um preço, a elevação dos deficits soberanos. As medidas mostram uma União Europeia desunida, sem uma espinha dorsal, com políticas fiscais comuns”, afirma. Ou seja, as restrições a alguns mercados não impedem a geração de deficits pelos países.

Para o ex-presidente da CVM, a solução para a crise em alguns países da zona do euro, como Grécia, Espanha, Itália, Irlanda e Portugal, seria a desvalorização das suas moedas, o que se tornou impraticável com a união monetária. “O quadro é assustador. É ilusório imaginar que vamos passar incólumes a essa crise. No mundo globalizado, você pode ter efeitos (de crises) mitigados, mas nenhum país vai passar incólume.”



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